Em quase todos os finais de ano, a sensação que resta para Olívia é de que nada parece certo. A sensação é de que a vida não está no lugar, de que tudo está como não deveria. E aquele sentimento de decepção, por não ter conseguido dar o seu melhor, por não se sentir suficientemente boa, por não achar que valha alguma coisa, por não sentir que é tão importante como dizem. Palavras podem ser ditas a qualquer momento, mas as lágrimas sempre permanecem a cair, pois, às vezes, não passam de letrinhas miúdas que Olívia tem dificuldade para ler. Arrancar os fantasmas da alma, é quase uma sentença de morte.
Se alguém lhe perguntar o que deseja para o próximo ano, certamente diria que não há o que alcançar. Tudo parece tão distante, tão soltos de suas mãos... Restos não lhe bastam. Migalhas não lhe sustentam. Mas, Olívia rasteja, anda de joelhos, caminha sobre pedras até quando tiver de ser. Tem a certeza quase psicótica de que ano após ano acumula renúncias, traços de fraqueza, vestígios de fracassos, moldes de sorrisos falsos. Não acredita mais em coisas que antes acreditava. Não confia em caminhos escuros, pois eles sempre a fazem tropeçar. Não enxerga as luzes, então a rota é traçada por onde tiver de ser. Olívia guia-se pelas estrelas... distantes, de brilho opaco.
Na contagem regressiva de ano novo, Olívia chora pela continuação do ontem, e, do hoje. Por ter perdido a esperança, por sentir que o caminho permanecerá turbulento, e, que continuará andando descalça. De que quem ela é, não passará de um rascunho de vida. Um rabisco mal feito, e, mal interpretado. Ou nunca lido. De que o que ela tem para dar são apenas cinzas, folhas secas de uma vida vivida pela metade. Ou nem isso.
Olívia não pede por grande coisa. Ela só queria viver um pouquinho. Só um pouquinho...
Ela não sabe ser mais do que é.

