sexta-feira, 16 de maio de 2014

Meias verdades


Amanda chega em casa, no dia seguinte, e não encontra mais as chaves dele em cima da mesa da cozinha. Ele havia saído na noite anterior, e não tinha voltado até então. Não voltaria mais. Ela sabia disso. Mas, ainda assim procurou pelas chaves, pelo jaleco jogado no sofá, por qualquer ruído que fosse dele.

Durante a noite, não conseguiu dormir. Não conseguia permanecer sozinha na cama. Durante todas as noites, ainda o esperava para deitar. Esperava por aquele abraço, por aquele sorriso. Disse a si mesma que não suportaria uma segunda vez.

Seu corpo respondeu da pior maneira. Com a falta de apetite, com os enjoos, com os vômitos durante o dia, com as dores insuportáveis, com os desmaios sem causa aparente, com infecções descabidas e o que mais pudesse surgir.

Remédios não eram o suficiente, então não os quis mais. Não tinham qualquer efeito e não passavam de placebo. Amanda se recusava a viver a realidade que não era para ser a dela. Sequer quis admitir que usaria tudo o que fosse possível para viver uma mentira, porque a vida não passava de um teatro, onde todo mundo usa máscaras para sobreviver. Chegou à conclusão de que era preciso remoldar a verdade para sobreviver. Inclusive, para si mesma.

E assim encontrou algum refúgio. Em um abrigo insano, entorpecente, mas que lhe trouxe algum descanso. E quando os abrigos faziam efeito, Amanda conseguia fugir.

Ela não se importava de andar na tempestade. Ela só queria um caminho para seguir. Mas, a ponte se partiu em pedaços e Amanda se viu no mesmo lugar de muitos anos atrás. Andar em círculos cansa. Machuca.

Hoje, nada a faz permanecer sóbria.



quarta-feira, 19 de março de 2014

Sinal vermelho


Não sei dizer ao certo como cheguei até aqui. Foi uma longa caminhada, exaustiva, por diversas vezes. Lembro-me de quando iniciei os primeiros passos. Tímidos e despretensiosos. Eu era apenas um desejo daquilo que eu esperava me tornar. 

Apertei os passos. Era a minha vez. Caminhar por ali ou, andar em círculos. Tudo foi uma questão de tempo. Eu era apenas um pedaço do que eu não almejei me tornar. Um pedaço que poderia ser desfeito, por mim. 

Meus pés estão machucados. Caminhar no asfalto quente, por entre as pedras deixadas ao longo do caminho  me fez cair inúmeras vezes. Gritei. Pedi ajuda. Não obtive retorno. Ninguém parou o carro para prestar socorro. Olhavam, diziam algo que julgavam ser útil e necessário e logo após, as palavras que, mais do que qualquer outra coisa, me empuravam de volta ao chão. E, todos iam embora. 

Levantei. Era apenas a primeira queda. A primeira de muitas. Eu nunca havia caído, de fato. Tropeçava, perdia o equilíbrio e, eu conseguia me manter de pé, independentemente de quem passasse por ali. Mas, sempre há uma primeira vez. E caí. 

Sob o sol escaldante ou caminhando debaixo de uma tempestade no meio da noite, eu sempre estava ali. Um passo de cada vez. Ou dois. Alguns pulos, para me certificar de que eu ainda estava viva. Eu corri. Corri para alcançar o sinal verde. Por vezes, eu tive de esperá-lo, pois, não chegava a tempo. Em outras, eu atravessava a rua, sem medo. Eu me sentia radiante. Eu poderia controlar todo o trânsito, se assim eu desejasse. 

Blackout. Desordem. Os carros não obedeciam às sinalizações. Pedestres atravessavam as ruas a qualquer hora e, em qualquer lugar. Freios e, desencontros. Um caos. Eu, ali. Inerte. Por um milésimo de segundo, eu quis fugir. Todas as ruas estavam bloqueadas. Organizei-me. Esperei. Tudo estava de volta ao ser lugar. Porém, há sempre alguém insensato, pronto estabelecer novamente o pesadelo de águas profundas. 

Lembro-me de cair pela segunda vez. Pela terceira. Pela décima. Incontáveis quedas. Incontáveis pedidos de socorro. Chutes. Empurrões. Risos. Descréditos. Não esperei mais. Não pedi mais. Levantava da maneira que me era possível. 

O caminho é longo. Paro diante do sinal vermelho. Olho para cima. Vermelho intenso. Olho para trás e vejo o extenso caminho percorrido. Mas, até onde? 

Talvez, seja melhor eu parar por aqui. O sinal vermelho não é para os veículos que aproximam-se em direção contrária. É para mim. 



quinta-feira, 13 de março de 2014

Liberdade


Sento-me confortavelmente no sofá. Abro todas as janelas para apreciar a lua ali escondida. Vento frio e noite com céu nublado.

Um cobertor. Um meio sorriso. Um pensamento. Não sei dizer qual, interrompido por elas. As palavras saíram, sem que eu as permitisse. Queriam respirar ar puro. Sussurram em meus ouvidos, mas não as compreendo. Não sabem quem fala primeiro. Algumas gritam, pedindo para serem ouvidas, com uma certa urgência. Outras atropelam as que se juntam para formar palavras curtas. Abelhas em forma de palavras.

Não consigo entender o que querem me dizer. Empurra-empurra. Amontoam-se umas nas outras. "Silêncio!", grito. "De novo?", diz a letra A. "Como quase sempre", completa a letra T. "Onde ficaremos?", pergunta a letra E. "Eu sei onde devemos estar", diz a letra R. "Podemos existir?", pergunta-me a letra M, após segundos de silêncio. "Acalmem-se!", respondo. "Estamos tão tranquilas que nos chega a ser tediante", ironiza a letra T.

As palavras estão acorrentadas. Não umas nas outras. Estão aqui dentro, tentando, a qualquer custo, se soltar. Livrem-se de mim. Saiam, Vão para onde devem ficar. Ser. Crescer. Existir. Viver.

A A E T M R
T E M A R A
E A R M A T
E T A R M A

Lá se vão as palavras. 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Atravessando a rua


Ela já imaginava que ele soltaria sua mão antes de atravessarem a rua. O medo dele sem forma definida o faz recuar, e ela ainda permanece em pé na calçada, olhando para ele. Ele sempre dá um passo para trás, desde o começo. Ao invés de caminharem juntos, ele tem dúvidas se podem, de fato, chegar do outro lado, intactos. Ele tem receio se, no meio do caminho, ela decidir voltar e soltar a  mão dele, com um arrependimento medíocre de que ambos não deveriam atravessar a rua naquele momento. E talvez, não juntos. Ou ainda, ela pode dar passos mais lentos ou mais rápidos que os dele, sem ritmo. Fora de ritmo só se for ele, de coração doentinho, arrítmico. Ele parece não reconhecê-la ao seu lado. É ela quem ele quer segurando as suas mãos durante o caminho?

Os carros, uma metáfora barata da vida, passam em alta velocidade. Ela estende a mão, mas ele hesita. "Não perca os ponteiros do relógio, e com eles o tempo que não volta, pensando no que pode ser errado. Erro é um ponto de vista, não uma verdade", ela pensou. Poderiam estar muito bem juntos, se ele não pensasse tanto em querer acertar a qualquer custo.

Se ele quer continuar onde está, por se sentir mais confortável parado do que enfrentando os perigos do sinal verde (atravessa-se a rua quando a cor é verde, sabia?), ou se ele prefere esperar por outro alguém que seja o certo para si... Ela confessa então que não vai atravessar a rua com outra pessoa. Prefere assim arriscar um sinal vermelho sozinha.

Ela não quer chegar do outro lado sem ele. "Decida-te", gritou. O sinal não ficará verde para sempre. E se um carro atravessar o sinal vermelho? E o tempo... ele não volta.