terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Atravessando a rua


Ela já imaginava que ele soltaria sua mão antes de atravessarem a rua. O medo dele sem forma definida o faz recuar, e ela ainda permanece em pé na calçada, olhando para ele. Ele sempre dá um passo para trás, desde o começo. Ao invés de caminharem juntos, ele tem dúvidas se podem, de fato, chegar do outro lado, intactos. Ele tem receio se, no meio do caminho, ela decidir voltar e soltar a  mão dele, com um arrependimento medíocre de que ambos não deveriam atravessar a rua naquele momento. E talvez, não juntos. Ou ainda, ela pode dar passos mais lentos ou mais rápidos que os dele, sem ritmo. Fora de ritmo só se for ele, de coração doentinho, arrítmico. Ele parece não reconhecê-la ao seu lado. É ela quem ele quer segurando as suas mãos durante o caminho?

Os carros, uma metáfora barata da vida, passam em alta velocidade. Ela estende a mão, mas ele hesita. "Não perca os ponteiros do relógio, e com eles o tempo que não volta, pensando no que pode ser errado. Erro é um ponto de vista, não uma verdade", ela pensou. Poderiam estar muito bem juntos, se ele não pensasse tanto em querer acertar a qualquer custo.

Se ele quer continuar onde está, por se sentir mais confortável parado do que enfrentando os perigos do sinal verde (atravessa-se a rua quando a cor é verde, sabia?), ou se ele prefere esperar por outro alguém que seja o certo para si... Ela confessa então que não vai atravessar a rua com outra pessoa. Prefere assim arriscar um sinal vermelho sozinha.

Ela não quer chegar do outro lado sem ele. "Decida-te", gritou. O sinal não ficará verde para sempre. E se um carro atravessar o sinal vermelho? E o tempo... ele não volta.