quarta-feira, 19 de março de 2014

Sinal vermelho


Não sei dizer ao certo como cheguei até aqui. Foi uma longa caminhada, exaustiva, por diversas vezes. Lembro-me de quando iniciei os primeiros passos. Tímidos e despretensiosos. Eu era apenas um desejo daquilo que eu esperava me tornar. 

Apertei os passos. Era a minha vez. Caminhar por ali ou, andar em círculos. Tudo foi uma questão de tempo. Eu era apenas um pedaço do que eu não almejei me tornar. Um pedaço que poderia ser desfeito, por mim. 

Meus pés estão machucados. Caminhar no asfalto quente, por entre as pedras deixadas ao longo do caminho  me fez cair inúmeras vezes. Gritei. Pedi ajuda. Não obtive retorno. Ninguém parou o carro para prestar socorro. Olhavam, diziam algo que julgavam ser útil e necessário e logo após, as palavras que, mais do que qualquer outra coisa, me empuravam de volta ao chão. E, todos iam embora. 

Levantei. Era apenas a primeira queda. A primeira de muitas. Eu nunca havia caído, de fato. Tropeçava, perdia o equilíbrio e, eu conseguia me manter de pé, independentemente de quem passasse por ali. Mas, sempre há uma primeira vez. E caí. 

Sob o sol escaldante ou caminhando debaixo de uma tempestade no meio da noite, eu sempre estava ali. Um passo de cada vez. Ou dois. Alguns pulos, para me certificar de que eu ainda estava viva. Eu corri. Corri para alcançar o sinal verde. Por vezes, eu tive de esperá-lo, pois, não chegava a tempo. Em outras, eu atravessava a rua, sem medo. Eu me sentia radiante. Eu poderia controlar todo o trânsito, se assim eu desejasse. 

Blackout. Desordem. Os carros não obedeciam às sinalizações. Pedestres atravessavam as ruas a qualquer hora e, em qualquer lugar. Freios e, desencontros. Um caos. Eu, ali. Inerte. Por um milésimo de segundo, eu quis fugir. Todas as ruas estavam bloqueadas. Organizei-me. Esperei. Tudo estava de volta ao ser lugar. Porém, há sempre alguém insensato, pronto estabelecer novamente o pesadelo de águas profundas. 

Lembro-me de cair pela segunda vez. Pela terceira. Pela décima. Incontáveis quedas. Incontáveis pedidos de socorro. Chutes. Empurrões. Risos. Descréditos. Não esperei mais. Não pedi mais. Levantava da maneira que me era possível. 

O caminho é longo. Paro diante do sinal vermelho. Olho para cima. Vermelho intenso. Olho para trás e vejo o extenso caminho percorrido. Mas, até onde? 

Talvez, seja melhor eu parar por aqui. O sinal vermelho não é para os veículos que aproximam-se em direção contrária. É para mim. 



quinta-feira, 13 de março de 2014

Liberdade


Sento-me confortavelmente no sofá. Abro todas as janelas para apreciar a lua ali escondida. Vento frio e noite com céu nublado.

Um cobertor. Um meio sorriso. Um pensamento. Não sei dizer qual, interrompido por elas. As palavras saíram, sem que eu as permitisse. Queriam respirar ar puro. Sussurram em meus ouvidos, mas não as compreendo. Não sabem quem fala primeiro. Algumas gritam, pedindo para serem ouvidas, com uma certa urgência. Outras atropelam as que se juntam para formar palavras curtas. Abelhas em forma de palavras.

Não consigo entender o que querem me dizer. Empurra-empurra. Amontoam-se umas nas outras. "Silêncio!", grito. "De novo?", diz a letra A. "Como quase sempre", completa a letra T. "Onde ficaremos?", pergunta a letra E. "Eu sei onde devemos estar", diz a letra R. "Podemos existir?", pergunta-me a letra M, após segundos de silêncio. "Acalmem-se!", respondo. "Estamos tão tranquilas que nos chega a ser tediante", ironiza a letra T.

As palavras estão acorrentadas. Não umas nas outras. Estão aqui dentro, tentando, a qualquer custo, se soltar. Livrem-se de mim. Saiam, Vão para onde devem ficar. Ser. Crescer. Existir. Viver.

A A E T M R
T E M A R A
E A R M A T
E T A R M A

Lá se vão as palavras.