quinta-feira, 5 de março de 2015

Loja de usados


Onde se compra uma nova mente? Esta não pode mais maltratar o corpo e destruir a alma. 

Onde se compra novos ouvidos? Estes, preferem não mais escutar. Ouvem ruídos, dizeres, e, barulhos que não se definem. 

Onde se compra uma nova boca? Esta cansou de gritar. Pediu para não mais deixar o interior escapar. 

Onde se compra uma nova pele? Ela está machucada pelos espinhos... 

Onde se compra dedos novos? Eles não param de arranhar, ferir e tocar apenas o vento. Pediram descanso. 

Onde se compra novas lágrimas? Estas já estão ácidas...

Onde se compra novos pés? E cabelos? E pernas, e, braços? 

Onde se compra novos olhos? Olhos já não me servem. Vejo o que não reconheço. Vejo o que não vem até mim. Vejo o que não posso suportar. Vejo um nada para agarrar. 

Onde se compra uma nova máscara? Sim... afinal, todos temos algumas guardadas. 

E, o mais importante: onde se compra uma nova vida?



domingo, 4 de janeiro de 2015

A colheita


Dizem que colhemos o que plantamos. Então, acho que estou na colheita errada. Esta não é a minha, ou foi devastada por pragas. Estou colhendo vazios, uma dor invisível. As raízes estão apodrecidas, mal se sustentam no solo. Posso puxá-las com facilidade. E, cada vez que faço isto, abro um buraquinho na alma. Se não o fizer, comprometerá toda a plantação. Mas, vejo agora que toda a colheita está da mesma forma. Devo ser uma inapta camponesa.