terça-feira, 31 de maio de 2016

Esse corpo não é meu



Talvez, me olhar no espelho todos os dias seja um ato de coragem. Não sinto meu próprio corpo. Não o sinto como real. Estranha-me a imagem no espelho. Ela é diferente de como me propus a ser. Tenho medo do meu corpo, tenho medo do que vejo, tenho medo de ser essa mulher que aparece para mim no espelho. Tenho medo do que essa mulher se tornou e do que ela faz com o próprio corpo. Do vômito que provoca, das feridas que faz em si mesma, da dor que engole formando um bolo na garganta, da privação em comer. Tenho medo também do que dizem sobre o corpo dela. Assusta-me o que fazem com o corpo dela. Não, esse corpo não pode ser o meu. 

Eu odeio o meu corpo. Odeio o que ele  representa para mim. Odeio ver todas as marcas imaginárias que este corpo viveu, por anos. Encharcado de lágrimas, acorrentado à dores na alma, enterrado em cinzas. Meu corpo não é meu templo. Meu corpo é meu inferno particular. Como olhar para um corpo, diariamente, coberto de feridas invisíveis, mas altamente pulsantes? Que analgésico alivia a dor desse corpo? 

Não sei olhar para o meu corpo de outra forma. Olho-o no espelho e desejo sua morte. Não a minha. A dele. Ele não deveria existir em mim. Ele não deveria expressar tanta dor. Nenhum livro traduz a linguagem corporal do meu corpo. Ele grita, chora, e ninguém parece ser capaz de ouvi-lo. Nem eu. Eu quero que ele morra. Eu quero que ele se desfaça em pedaços. Eu o quero cada vez mais magro, porque eu odeio cada cantinho dele. Mas, a dor... ela não passa. Não vai embora junto com o peso perdido. A dor se tornou um órgão interno de vital importância. Não sei sentir outro sentimento que não seja angústia e medo. 

A dor é minha segunda pele. E assim machuco meu corpo. Na tentativa distorcida e assustadora da dor da alma desaparecer. Eu quero arrancar minha pele para assim arrancar as memórias do meu corpo e da minha mente. 

Meu corpo já foi meu cobertor. Aquele que me protege na tempestade. Aquele que me ampara de olhares. Aquele que me esconde dos abusos. Mas eu não sei conversar com o meu corpo. Travamos inúmeras discussões e batalhas silenciosas, onde ambos saem totalmente exaustos. E eu sempre prometo vingança. 

Dietas são uma tentativa perturbadora de reconexão interior. Quem faz dieta está tentando se encontrar. Eu faço. Não me encontro. Encontro apenas meu pior eu. Ansioso, culposo, exausto, frustrado. Dietas são minha serenata para o meu corpo. Serenata da auto-destruição. Eu não o respeito, forço-o ao que ele não consegue entender e ao que eu mesma não entendo, mesmo seguindo. Porque eu tenho sede de vingança. Contra meu corpo. Contra minha dor. Contra a minha história. Sou a minha própria exterminadora do futuro, enquanto destruo meu presente revivendo o passado. 

E na tentativa de reescrever meu passado, uso a comida como arma. Ora como anestesia, ora  como punição. Anestesia contra a ansiedade e contra o incerto, punição contra o peso. Peso das emoções, peso de viver. Tudo pesa. Meu corpo carrega nas costas o peso da minha vida. 

Engulo meus próprios sapos. Como os meus sentimentos. Como os que quero sentir e os que não quero. Quero mastigá-los, triturá-los, para desaparecem da minha frente. Sou minha lixeira interior. Coloco restos de vida para dentro. Meu buraco negro dói. Tenho fome de amor. Tenho fome de mim. Tenho fome do que não vivi. Eu tenho uma fome que dieta alguma controla. As compulsões existem porque eu me privo de mim. Eu deixo as pessoas me privarem de mim porque não sei ser diferente. 

Vivo no meu mundo, sofrendo por despersonalização* descabida. Ninguém me ouve. Escutam-me, mas não me ouvem. Sofro sozinha, sem conseguir olhar para o espelho e sorrir. Quanto eu me julgo? Quanto os outros me julgam? Quanto do outro deixo marcado em mim? Quanto de mim eu deixo no olhar do outro? 

Perdi a conta de quantas consultas já tive. Após médicos e nutricionistas me examinarem, pensei em dizer que nem tudo é o que parece. Mas não o fiz. Ao mesmo tempo que tenho vontade de gritar sobre como me sinto, desejo que as consultas acabem o mais rápido possível, e se alguém tocar no assunto que me incomoda, desejo não falar mais sobre isso. A cada medida corporal feita em mim, me sinto manipulada em meus piores sentimentos, violentada. Meu corpo guarda as marcas da dor. O profissional que toca meu corpo fere cada marca não cicatrizada. Quero que alguém me entenda, mas tire de mim toda a dor através de um truque de mágica. Minha vontade de emagrecer é minha vontade de me livrar dos problemas. Acreditei que emagrecer fosse algo totalmente controlável através de um papel que não me representa. Comprimidos, calorias, medidas. Quem estou tentando enganar? O que acontecerá comigo se a cada problema que não conseguir lidar, eu desejar emagrecer rapidamente ou comer como se não houvesse amanhã? 

Quem me olha não imagina o que sinto pelo corpo. Não imagina o que sinto com meu corpo. Não imagina que tento ser perfeita, que tento corresponder às cobranças na tentativa fracassada de resolver meu problema. Não imagina que não consigo me ajudar ou procurar quem me ajude porque a cada atenção à dor me causa tristeza. Não imagina a vergonha e o medo que sinto. Eu não quero o olhar reprovador de ninguém. Aquele olhar tão do outro e, ao mesmo tempo, tão meu. 

Esse corpo meu não me pertence. Esse corpo não é meu. E ainda que eu tenha falado tanto  sobre mim, nunca me parece ser o suficiente sobre o que preciso falar. 


*Despersonalização: Distúrbio dissociativo que consiste na sensação frequente 
em que o indivíduo se sente distante de si mesmo, como se a vida 
passasse em um sonho ou filme. O indivíduo se sente um observador 
externo dos próprios processos mentais e do próprio corpo, tendo 
a sensação de não ter o controle sobre as próprias ações. 

domingo, 8 de maio de 2016

Cartas de um suicida (Não entregue)


"Escrevo para tentar me libertar da dor. Eu sempre quis que fosse diferente. O erro está ali, feito, e, a mente adentra pelo caminho menos correto. Minha mente e corpo não se entendem. Eu tento acertar, errando aqui e ali. As tentativas são várias, e, estão todas espalhadas pelo caminho. Meu destino é como um mapa que eu não consigo abrir. Ponho-o em cima da mesa, viro de cabeça para baixo, deixo ao contrário, e... não consigo ver nada. Começo a recontar os desvios, finalizando em um caminho sem direção. É como caminhar em círculos. Largo o mapa em algum canto, para rever depois. E quando novamente o faço, termino em um caminho sem saída. Respiro fundo e sussurro ao tempo um "Que seja", mesmo ainda querendo que as coisas fossem diferentes. 

"Não basta querer", me dizem. É preciso ter força de vontade, levantar, e, ir. Mas, é como se eu não sentisse minhas próprias pernas. Cadeira de rodas? Eu caminho por pedras, e, as rodas sempre ficam presas entre elas e sempre caio. Em algum momento, conheci a loucura ao tentar rastejar. Eu ainda me obrigo a ter algum resquício de esperança. Eu me obrigo a ter outra chance. Acabo por beber minhas próprias lágrimas, e, me alimentar das migalhas encontradas pelo chão. Engulo seco, e, olho para frente. 

Cada vez que inicio um recomeço, eu sinto o gosto amargo da última tentativa. Tenho a sensação de peso, de cansaço físico e mental suficientes para me fazer parar e encostar no primeiro poste. Não consigo organizar os passos, tantas vezes desfeitos pelos tombos e empurrões. Aprendi a tatear o chão, e de tanto o fazer, as mãos sangram. As mesmas mãos que rabiscam desenhos, sem forma, em tons de cinza. Aprendi a ignorar meu próprio olhar, subtraindo os acertos, em que os erros se acumulam. Como uma bola de neve. 

Quando és criança, teus sonhos são muito bonitos. Com o passar dos anos, eles ainda são bonitos, mas são o peso solitário que, muitas vezes, não suportas carregar, de tão torturantes... Porque eles são apenas isso: sonhos. Não entraram pela porta da realidade. Ao menos, a realidade que todos conhecem e têm em comum. Talvez, o meu problema seja pensar demais. E, quando penso, eu sinto o peso do tempo. E desejo a morte. O enterro de um corpo que não consegue dar alguns passos sem cair e não saber como levantar. O futuro, que não começou, acenou de longe, e, está tão distante, que não consegui deixar um recado e depositar a pouca esperança que ainda tenho. 

Dos tantos erros que cometi, e, dos infernos que vivi, a vontade de chorar e a sensação de estar com algo preso na garganta, sem conseguir pronunciar uma palavra, se fixam. Eu não consigo acertar. E, por um amontoado de retalhos, a impressão que tenho é de que eu não valho nada. O mínimo de esforço. Nem meu e, muito menos, dos outros. Eu não sou bom. Eu frustro as pessoas. Eu decepciono as pessoas. Crio uma realidade que não passa da porta da minha casa. E, o acerto que eu quis conquistar, transformou-se em um grande equívoco, em lágrima. 

Eu não consigo parar de chorar. Eu tenho medo, muito medo. Medo do vazio. Medo do escuro. Medo de até onde as nuvens cinzas podem chegar. Medo do que meus olhos vermelhos podem ver. Do que adianta tentar dar o meu melhor, se o meu melhor não é suficiente? Nunca parece resultar em algo realmente bom. Queria ser tão forte quanto aparento ser. Eu queria fazer diferença na vida de alguém. E na minha. Que, de alguma forma, eu valesse à pena. Não somente por alguns momentos.

Mas, há marcas, feridas que não cicatrizam, porque sempre tem algo para perfurá-las, apagando as memórias boas que eu tento construir. Está tudo tão desfocado, que eu não sei mais onde está o ponto de equilíbrio. Acho que jamais o encontrei. E para falar a verdade, equilíbrio é uma palavra ridícula. Ninguém consegue ser equilibrado enquanto viver. Quando crianças, acreditamos em Coelho da Páscoa. Quando adultos, acreditamos em equilíbrio. Querer alcançar o equilíbrio é acreditar em Papai Noel. 

Sempre tombo para um dos lados, e, acabo por ser uma cópia mal feita do que minha mente desenhou. Ou talvez ela desenhou exatamente isso. Sou um papel amassado, rabiscado, molhado pela chuva, em que todas as palavras escritas nele não conseguiriam sequer definir o incerto. 

Com o tempo, os esboços começa a ser escritos por outros (Ou sempre foram escritos pelos outros). E, tu acabas por acreditar naquelas palavras. Porque, afinal, tu só sabes tropeçar. E, das vezes, que consegues levantar, não reconheces mais teu rosto no espelho. Talvez, tudo o que eles dizem seja verdade. Que eu sou um lixo humano e que eu deva parar de tentar ser algo além de pedrinhas. 

Dói respirar. Dói estar nesta realidade. Machuca saber que eu sou apenas uma caixinha distorcida que jamais terá uma forma bonitinha de se apreciar. E, dentro... habitam os fantasmas de uma mente perturbada."