terça-feira, 20 de junho de 2017

Tapete felpudo


Sentada na recepção do consultório do psiquiatra, ainda sem saber exatamente o que faço aqui, vejo, pouco a pouco, outros pacientes chegando. Alguns outros, com uma expressão facial que não consigo decifrar, saem do consultório com uma prescrição cheia de nomes. Eu me pergunto se cada paciente sai satisfeito com seu atendimento. Se era isso que esperava (remédios) ou se houve algum sentimento de frustração (mais remédios?) e nenhuma resposta. Embora eu saiba que as respostas nunca são encontradas em 30 minutos de atendimento, ao contrário do que gostaríamos. 

As respostas deveriam ser nossas vizinhas, para quem sempre recorremos quando falta açúcar ou trigo na receita de bolo da vida. A resposta parece que gosta de se esconder da gente. Menina sapeca que nos escapa pelas mãos. Talvez a resposta tenha exatamente essa função: viver desaparecida, longe dos nossos olhos. Se a prendêssemos em nossos dedos, talvez nunca a veríamos como resposta. Acho que se cada paciente pudesse resumir-se em uma única frase, diria "Me diga o que fazer para acabar com meu sofrimento. Me dê a resposta"

Ainda sigo me perguntando o que faço aqui. O que me mantém presa à cadeira da clínica do psiquiatra. Mais comprimidos para aliviar meu sofrimento. Ou aumento na dose dos vários medicamentos que já tomo. Ainda sigo me perguntando se eu realmente quero aliviar meu sofrimento. Ele faz parte de mim. Por mais que eu queira acordar com a morte deitada ao meu lado, é o sofrimento que ainda me mantém viva. Tão perturbador, e ainda assim tão companheiro. Tão dilacerante, e ainda assim tão eu. Um pouco de mim se vai a cada comprimido ingerido. Não sei mais dizer o quanto resta de mim na ausência de sintomas. 

Se eu me sinto tão solitária, não compreendida, insuficiente, angustiada, disfórica, o que sobra sem os sintomas? Que parte de mim precisa ser silenciada para que eu volte a ser o que era antes se eu nunca fui quem eu quis ou poderia ser? O que estou tentando varrer para debaixo do tapete felpudo Apolo da recepção do psiquiatra? 

Ainda sentada, ouço uma moça, por volta de seus 40 anos, brigar com um adolescente, em voz baixa. Seu filho, talvez? Ela diz que não sabe por que o rapaz abandona o tratamento. Gostaria de dizer a ela que ele se sente sozinho. E que não se sente ouvido. Pior: que não é convidado a falar suas próprias meias verdades. Permaneço em silêncio. Nem sempre devemos falar o que queremos e nem sempre o outro está pronto para ouvir. 

Mas cá entre nós, comprimidos não nos ouvem. Não cuidam de nós quando mais precisamos. Não nos abraçam. Ainda não soube de um comprimido que pudesse conversar comigo. E, talvez, o mais importante: Não há comprimido que me ame. E que eu ame de volta. Ou odeie. Não há relação alguma entre mim e um pedacinho de pó. Não há comprimido que preencha a solidão. Longe de mim querer que todo mundo nunca precise deles! Eles ainda tentam nos ensinar a fazer a receita de bolo recheado de vida com cobertura de bem estar. E às vezes é bem bom ter a receita pronta para degustar alguns pedaços desse bolo saborosíssimo. 

Ainda me pergunto o que eu faço aqui. Só existo a partir do meu sintoma. Para que anestesiá-lo se me calar não me faz mais pertencente a mim? Não é de 10mg de olanzapina que eu preciso.