- Queres que eu arranje outra pessoa?
Respiro fundo. Fecho os olhos. Há algo que eu possa dizer que vá fazer alguma diferença no teu discurso paranoico e agressivo?
- Para que tu queres outra mulher? - pergunto em resposta. Sem acreditar no absurdo que estou ouvindo.
- Vai que outra é mais louca do que tu e eu tenho sorte com ela?
Senti uma certa dose de ofensa ao me chamar de louca. Quase respondi: "Para levar mais um chifre?". Contive-me. Não respondi à altura da agressão. Mas ri, internamente. A mulher louca aqui nunca foi infiel, apesar de tuas ex-namoradas. Sempre repito que não fiz parte do teu passado para achar que sou igual às putas que passaram pela tua vida. A louca aqui sempre esteve contigo no teu pior e nunca te abandonou. Loucura, né?
Rapidamente lembrei das noites anteriores em que me disseste que jamais tocaria sexualmente em mim, se eu sentisse alguma dor. A louca aqui nem para satisfazer um homem, sexualmente, serve. Por que fui dizer sobre essa minha condição... particular? Que maluca.
Começo a achar que fazes de propósito. Não é possível. Testas-me para saber até onde vou? Penso em soltar um xingamento. Penso em gritar de raiva. Penso em não dizer nada. Quem cala, consente... tu dirias, fomentando uma discussão. Sabes ser cortante com as palavras. Gabaritaste esse treinamento com excelência, e, título de especialista.
- Você que sabe. - finalmente respondo.
- Não faz diferença eu ter outra? É isso que tu me dizes? Eu que sei?
Foi nisso que te prendeste em toda a situação? Mas... Sim. Tu que sabe. Ao invés de resolver uma situação, arrastas pelo caminho um muro que colocaste entre nós. Tu que sabe. Colocas inúmeros impedimentos para resolver um problema relativamente simples e que complicas com muito zelo até a morte. Tu que sabe. Sentir saudade e ficar por isso... Tu que sabe. Diz que quer ficar comigo e aproveita qualquer situação para afirmar o quanto vais me manter longe... Tu que sabe. Afinal de contas, são decisões tuas que tomas baseadas nas tuas crenças irreais e inseguras acerca de nós dois. Tu acabas sempre decidindo somente por ti e pela tua defesa exagerada ao se sentir ameaçado, de alguma forma. Não decidi o mesmo, jamais.
Ah, querido... quem vai perder a louca que nunca te colocou um chifre e sempre esteve ao teu lado és tu. Tu quem tem de saber o que vai perder, né? Que louco tudo isso, não?
Eu tenho de estar com o nosso compromisso em dia, e, poder chegar até ti a qualquer momento. Mas por onde anda o teu compromisso em resolver dinâmicas simples sobre nós dois? Que louco, né?
Parece-me que um nós não é maior do que tua dúvida, teu medo paralisante, tua paranoia, tua desconfiança e tua insegurança.
Tu quem sabe, mesmo. Eu nunca sei o que dizer. Só penso "Opa, lá vem isso de novo. Mais uma vez vai querer terminar por algo simples". É sempre dar dois passos para trás para não encarar o que tem de ser feito.
Calei-me.
Continuaste falando o mesmo discurso mequetrefe, para boi dormir, de sempre. "Não sou uma boa pessoa. Vais encontrar alguém melhor... alguém que te complete. Que esteja contigo". Blá blá blá.
Como se terminar resolvesse (faz super sentido!) os problemas em um passe de mágica. Puff!! Sumiu. Sumiu o amor. Sumiu a saudade. Sumiu ter de resolver. Sumiu. Evaporou-se. Se você parar para pensar... A situação só pioraria. Que louco, né? Se sumir e fugir resolvesse o problema, encontraríamos a fórmula da felicidade no segundo seguinte. Puff! Cadê? Foi-se. Que coisa mais feliz!
- Ficas assim não quando não faço o que tu queres. - dizes.
É, aparentemente, só eu quero mesmo. Estou nessa sozinha. Poderias ser mais sincero ao dizer o que queres ou não queres. Tuas palavras dizem algo, e tuas ações dizem o contrário. Seria mais interessante afirmar categoricamente não querer dar um passo à frente num relacionamento.
Sabe o que é mais louco? Dar incontáveis voltas na resolução do problema, se emaranhando nas justificativas para não fazer o óbvio.
És mais cego do que eu. Um cego no meio de um tiroteio. Bastava você tirar a venda dos olhos... Mas a venda nos teus olhos te mantém "protegido" das visões do mundo exterior. Palmas para a proteção.
(...)
E dizem que a louca e histérica sou eu...