sábado, 26 de novembro de 2022

Transferência: um outro nome para a fome



Platão põe à mesa reflexões sobre o amor. Lacan degusta o banquete de Platão. Entre vinhos, comida farta e seminários... Onde cabe a fome, para além de suas artimanhas fisiológicas? 

Assim como entre Sócrates e Alcibíades, o que está em causa é o jogo que ocorre entre um sujeito e a fome, e consequentemente, com o corpo. 

É constituinte de nós, humanos, demandar amor. E a partir do amor, mais demandas.... E, demandas envolvem idealizações. Com as idealizações, caímos nas identificações. Por mais que demandemos amor, numa análise, nos deparamos a um vazio com a não correspondência da demanda. A comida (demandamos dela?), indo ao caminho contrário, acalmaria nosso vazio ao nos saciarmos (até demais), ao mesmo tempo que não queremos saber do nosso desejo, muito menos elaborar um saber de si.  

Se transferência é um outro tipo de amor, e se o amor tenta fazer um nó (no estômago?) entre significante e significado... Com a devida licença poética: O que se transfere PARA a comida? O que se transfere COM a fome? Qual o destinatário da fome? Os pacientes que comem demais e que chegam aos pedaços no consultório, como amam? Que encontro é esse com a comida, onde rapidamente a substituem por outra, em seguida? 

Se no senso comum se escuta a demanda, o que escutamos quando escutamos o mais além do comer? Entre tantas comidas, precisamos de um espacinho para a falta. 

Se temos desejo de sermos reconhecidos e o comer demais nos leva ao peso maior do corpo físico, e à não concordância com o corpo magro como sendo padrão, perdemos o lugar de objeto libidinal. Mas ainda queremos reconhecimento. Ainda demandamos amor. A onda do body positive seria um esforço para recuperar o olhar do outro por nós, em um grupo onde todos tem corpos maiores e se assemelham uns com os outros? 

Emagrecer desesperadamente e passando fome ou fazer procedimentos estéticos, ou ainda, tomar medicações para inibir o apetite... Forjamos o nosso desejo a partir do que supostamente o outro deseja. "Não era exatamente emagrecer que eu queria", diremos. 

Precisamos do outro para dar notícias sobre nós. 

Caminhemos, famintos, do lugar de amado, para o lugar de amante.