domingo, 15 de janeiro de 2023

Disco arranhado


Mais uma justificativa para caminhar fora dos trilhos e não estar na estação de trem no horário marcado. 
Mais um motivo para não atender aquele telefone, um retrô clássico azul marinho, dado de presente pelo teu pai, e fingir que não está em casa quando ele toca. 
Mais um não, quando eu sei que gostarias de ter dito sim, ao correr desesperado pela ponte num dia chuvoso em meio a discussões sobre como seguir em frente. 
Mais uma carta devolvida ao remetente, após várias tentativas de entrega. Sabes o que está escrita nela? 
Certamente, não sabes. Não pretendes saber. Fazes como há anos aprendeste: 2 passos para trás ao ver o menor sinal de tempestade. Não te ensinaram a dançar na chuva? Talvez tenhas brincado demais de faz-de-conta trancado em casa, durante a infância, e nunca te permitiste sentir o cheiro da chuva e de terra molhada.

Ainda tens medo de raios e trovões. Fazes de tudo o que for possível para não sair quando chove. Olhas constantemente a previsão do tempo. Talvez seja até capaz de um suicídio preventivo, para não ter que andar na chuva. Não tem mais água e comida em casa. Ainda assim, nada te impede de continuar inerte. 
Tu dás voltas e voltas para fugir do caminho. Como um disco arranhado. 

Baby, nunca passou pela tua cabecinha delirante que eu sei o que escondes até da tua sombra? 
Ainda estou aqui, apesar disso. Mas, ahh... as voltas sem parar em torno do desejo é uma cena e tanto. Quero ver teu rosto quando perceberes que tudo isso foi... inútil. Que não precisavas fazer absolutamente nada disso, nem malabarismos com o tempo, nem contar justificativas mirabolantes para não vir aqui fora. 

Vai continuar chovendo! Conheces a tempestade só de longe. Não ousas te molhar. Vozes da tua cabeça disseram que é uma chuva ácida. Olhe ao redor... nunca foi o fim. Ainda há jardins, casas e árvores intactas. 

Eu sei que ainda deixas alguns comprimidos de clozapina na gaveta perto da tua cama. Podem te fazer bem.  

Liberdade é poder se molhar e dançar na chuva sem medo dos clarões no céu. Sabias?

Enquanto isso, dentro de casa... Um disco arranhado anda em círculos. Até que alguém coloque a agulha, que lê as ranhuras do sulco do vinil, na posicao certa. Assim, ela o traduz em vibrações, geradas pelo contato entre as superfícies. Contato entre as superfícies. Entendes?
É assim que a música toca. Nunca te contaram? Ou estavas preocupado demais com a tempestade? 

Psiu... vai chover. 

Psiu... guarda-chuvas existem. Tenho um aqui. Vem pegar. 




"Vai ficar parado aí me ouvindo chorar? 
Tudo bem, porque eu adoro o jeito como você mente"
- Love the way you lie
Eminem feat. Rihanna