terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Olhos vermelhos


Por hora, as palavras se foram. Expressões deixaram de ser detalhes. Não reconheço meu rosto no espelho. Sempre o mesmo semblante cansado, apático. Minha voz permanece no mesmo tom, seco e arrastado. Os olhos? Vermelhos. Procurando foco. Distantes, e, perdidos. 

Os remédios estão todos ali, guardados. Não mantemos um diálogo. Não são o bastante. Ansiolíticos reduzem agitação psicomotora, mas não trazem minha serenidade de volta. Antidepressivos regulam seus devidos neurotransmissores, mas não me fazem sorrir por tanto tempo. Estabilizadores e antipsicóticos equilibram o humor, e, pensamento, mas não levam a dor e o vazio embora. Hipnóticos induzem o sono, mas não trazem para perto os meus melhores sonhos. 

A realidade tomou dimensões extremas, e pesadelos adquiriram forma. Está confuso dizer o que é real e o que não deveria ser. Misturaram-se. Uniram-se. Formaram par em uma dança simbiótica. Não sei quem saiu em vantagem. Eu, certamente, não foi. 

"O mundo já caiu. Só me resta dançar pelos destroços"
- Clarice Lispector



quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Assassinato na Rua 3


Era muito tarde. O único ruído capaz de se ouvir vinha dos ponteiros do relógio de cordas, no final do corredor. Meu dia havia sido cansativo e cheguei em casa por volta das 18h. Comi algo, e, fui tomar um banho. Antes de dormir, não me contive e, chorei. Soluçava sem saber o que estava acontecendo, como tantas outras vezes. Eu tremia, sentia frio. Não conseguia pensar em nada. Minha mente estava paralisada, sem conseguir andar para lugar algum. Não conseguia manter um pensamento. Eu só conseguia chorar. 

Deitei, e esqueci de apagar as luzes. Levantei e fui até o outro lado do quarto. Escuro, então. Sabes quando tens a sensação de estar sendo observado? Ignorei, abri as janelas e, rapidamente dormi. Sono intranquilo, dificuldades para respirar. Virei de um lado para o outro, tentando adormecer. 

De repente, um barulho. Talvez algo tivesse caído. Talvez fosse apenas o vento nos vidros das janelas. Respirei fundo e pus a cabeça no travesseiro, novamente. Não era nada...

Mais um ruído. Mais forte. Mais perto. Fui até a porta. Abri sem pressa e, nada. Saí do quarto e olhei para o relógio, no final do corredor. Corri de volta para o quarto. Subi em cima da cama, me ajoelhando nos lençóis. "De novo, não... De novo, não", pensei enquanto chorava. 

Quis sair da cama e fechar a porta, mas alguém veio em minha direção. Não sei quem era. Não sabia seu nome. Não reconheci a voz. Não conseguia ver se era um homem ou mulher. Eu evitava ver. Aquilo que estava à frente falou algo. Eu procurei não ouvir. Subiu na cama e, pedi para não se aproximar. E falou. Murmurou. Gritou. E, eu gritava junto, na tentativa de não mais ouvir. Pedi para parar, para ir embora, mas não me ouviu. Só sabia dizer coisas que não eram verdade. Só sabia pedir coisas que eu jamais faria. 

Eu não sabia o que fazer. Eu não sabia mais o que dizer. Para onde eu olhasse, tudo estava em chamas. Estava muito quente. Eu não conseguia pisar no chão. Eu não conseguia ficar na cama e, continuar a ver tudo pegando fogo e aquilo voando pelo teto. Repetia e, repetia quantas vezes fosse necessário, o que queria que eu fizesse. Eu negava. 

Corri pelo quarto e abri a porta, mas só havia fumaça por toda a casa. Gritei em vão. Eu não aguentava mais. Eu precisava sair. Eu precisava respirar. Em meio ao fogo e aos sussurros de quem quer que estivesse ali, atravessei o quarto novamente, correndo, em direção à porta da sacada. Eu só não percebi que a tela de proteção não estava ali. Eu caí do quinto andar. 

Lá embaixo, eu só consegui pronunciar uma única frase: "Eu não vivo. Eu existo. Tenho dor."

Morri. Eles me mataram. 



sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Subridere


E ela sorriu. 
Mesmo com os olhos repletos de lágrimas. 
Com o mundo desabando sob seus pés. 
Mesmo com uma tempestade pairando sobre sua cabeça. 
Com todos aqueles vultos e marcas no chão. 
Mesmo com um semblante distorcido, que mal conseguia se reconhecer. 
Com o que implorava para não ouvir.
Com coisas que lhe pediam para fazer.
Mesmo cheia de incertezas e desesperanças. 
Mesmo assim, decaindo... ela conseguiu sorrir. 
Sem saber como. Mas, com um porquê. 



quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O piano, o sentimento e as sombras


Não sou eu quem desliza as mãos sobre as teclas. É o sentimento, desprovido de fronteiras, que dá vida à cada compasso. Despeja sobre a vida, cada nota composta. A partitura, tatuada no corpo e na alma, renasce nos dedos. 

Não sou eu sentada à frente do piano. É a sombra e a metade do que existe por dentro. A cada som que escorrega pelas teclas, um pouco mais perto eu posso alcançar. Eu achei que estivesse composto a canção. Mas, foi ela quem me traduziu em sussurros. Foi o sentimento, em frenesi, que pôs pensamento em minutos. 

Chega perto. Dá-me tua mão. Toca. Respira cada espaço entre as notas compostas pra ti. Eu vou parar de tocar e a música não cessará. Elas não vêm das mãos. Vêm do coração. Eu vou parar de tocar e as teclas continuarão a se mover. É o sentimento, invisível, porém vívido, que rege a canção. 

Vês? Escutas?... Então, apaga as luzes e, dança comigo. 



sábado, 16 de julho de 2011

Citta


Encontro-me agora onde ninguém consegue ver. Aqui, em um lugar secreto, porém vívido.

Chegando aqui, encontrei o local escuro, sem luz alguma e, um silêncio, rompido pela minha entrada. O lugar está úmido. Olho de um lado a outro. Vazio. Onde estão os sorrisos, os olhinhos brilhando, as palavras deixadas, os encantos?

Sim. Há algo faltando. Na verdade, há tudo faltando. Todos os papéis foram arrancados do mural. A janela teve seu vidro partido. Cinzas, ao chão. Quem fez tal absurdo?

Sim. Meu coração revoltou-se contra mim. Atordoado, pediu-me para ir embora. Não me quis mais. Gritou comigo, decepcionado. “Sai daqui”, ele disse. “Não quero tua presença. Não te quero sozinha aqui. Volta para onde estavas”, gritava.

Abaixei a cabeça. Chorei. Peguei alguns pedaços de papel que estavam no chão, guardei-os e me preparei para sair. Virei-me, para tentar convencê-lo de que era ali que eu precisava ficar. “Eu quero voltar para casa”, pedi. “Vai. E só retorna com o que me trouxer à vida”. Virei o rosto, tentando procurar uma resposta. “Não chora. Vês isso aqui? Consegues sentir o local úmido pelas tuas lágrimas?”. Então, eu havia retornado mais vezes. E, como sempre, fui impedida de permanecer. E, eu chorava. “Fecha a porta, quando sair”, despedindo-se.

E voltei. Para onde, eu não sei. Minha teimosia não me faz desistir. Mas, sei que ele não me deixará entrar. Ele está certo. Este coração, está certo.



terça-feira, 21 de junho de 2011

Vida


Eu só peço que algo faça sentido. Deixa-me viver um pouco de ti, vida. Dá-me um espaço, pequeno que seja, para que eu possa conhecer quem és. Não quero mascarar a vida que tenho. Tampouco, decorar o ambiente com sorrisos que não me definem. Não quero caminhar sem rumo. Eu quero ter aonde ir. Eu quero ter para onde ir, entendeste, vida? 

Olha para mim. Estou aqui, à tua frente. Não me machuca assim... Não me devora assim. Ah, vida! Não me priva de viver. Eu não mereço teu desprezo. Ou mereço? Deve haver algum motivo para me ignorares tanto. Senta aqui do meu lado e, me diz. É para eu desistir? Os teus planos não coincidem com os meus? 

Responda-me! Encara-me! Era para eu ter ido, meses atrás? Era para eu não ter escutado aquela criança? Era para eu ter seguido com o plano? Por isso me esnobas? Porque eu não deveria te ter mais? 

Vida, olha para mim. Não me trata deste jeito. Dá-me um galho para eu me agarrar e, não me empurra para o penhasco. Não me faz sofrer assim. Dá-me esperanças. E uma certeza e, não te peço nada mais. Concede a mim uma certeza. Não me faz caminhar em vão. Não me faz caminhar até tão distante e, não encontrar abrigo na tempestade. Não me faz morrer na praia. Não me faz esperar o nada. 

Aguardo respostas. E, não demora. Eu posso não estar aqui quando chegares. Porém, talvez seja essa a tua intenção. Fazer-me desistir. Obrigar-me a interromper o percurso. 

Eu perco e, tu vences. Xeque-mate. 



quinta-feira, 26 de maio de 2011

Sacrificium Meus


As lágrimas que passeiam por este rosto encontram-se no lugar errado. O teu olhar amedrontado, não encontrou outra origem melhor para surgir e se apossou de ti. As mãos trêmulas e frias estão completamente enganadas quanto à impulsividade dos dedos que não sabem o que tocar. A voz embargada não procurou esperar por uma resposta. O grito saiu antes da hora e, pela porta errada.

Está tudo errado. Em ti.

Não sabes para onde deves ir? Então, vem cá. Aproxima-te. Dá-me tuas mãos. Arranca este teu olhar assustado, o grito teimoso, a voz ansiosa pelas palavras. Dá-me tua mente, em completo descontrole. Entrega-me todo o teu sofrimento. Qualquer mágoa. A pior angústia. O pesadelo proibido.

Eu prefiro viver e presenciar tudo o que destrói o teu mundo, do que te ver assim. Não reclamo se eu cair. Eu não devolvo teus tormentos. Sofro-os por ti. E irei sorrir. Porque, afinal, estarás livre de todos eles. Não há tortura pior do que te ver sofrer.


Aguentaria o peso do inferno nas costas para que tu pudesses caminhar. E não te solto. Porque, se algum temor tiveres, se alguma tristeza vier ao teu encontro, dá-me tudo. Entrega-me sem pensar. Eu os suportarei por ti.