Era muito tarde. O único ruído capaz de se ouvir vinha dos ponteiros do relógio de cordas, no final do corredor. Meu dia havia sido cansativo e cheguei em casa por volta das 18h. Comi algo, e, fui tomar um banho. Antes de dormir, não me contive e, chorei. Soluçava sem saber o que estava acontecendo, como tantas outras vezes. Eu tremia, sentia frio. Não conseguia pensar em nada. Minha mente estava paralisada, sem conseguir andar para lugar algum. Não conseguia manter um pensamento. Eu só conseguia chorar.
Deitei, e esqueci de apagar as luzes. Levantei e fui até o outro lado do quarto. Escuro, então. Sabes quando tens a sensação de estar sendo observado? Ignorei, abri as janelas e, rapidamente dormi. Sono intranquilo, dificuldades para respirar. Virei de um lado para o outro, tentando adormecer.
De repente, um barulho. Talvez algo tivesse caído. Talvez fosse apenas o vento nos vidros das janelas. Respirei fundo e pus a cabeça no travesseiro, novamente. Não era nada...
Mais um ruído. Mais forte. Mais perto. Fui até a porta. Abri sem pressa e, nada. Saí do quarto e olhei para o relógio, no final do corredor. Corri de volta para o quarto. Subi em cima da cama, me ajoelhando nos lençóis. "De novo, não... De novo, não", pensei enquanto chorava.
Quis sair da cama e fechar a porta, mas alguém veio em minha direção. Não sei quem era. Não sabia seu nome. Não reconheci a voz. Não conseguia ver se era um homem ou mulher. Eu evitava ver. Aquilo que estava à frente falou algo. Eu procurei não ouvir. Subiu na cama e, pedi para não se aproximar. E falou. Murmurou. Gritou. E, eu gritava junto, na tentativa de não mais ouvir. Pedi para parar, para ir embora, mas não me ouviu. Só sabia dizer coisas que não eram verdade. Só sabia pedir coisas que eu jamais faria.
Eu não sabia o que fazer. Eu não sabia mais o que dizer. Para onde eu olhasse, tudo estava em chamas. Estava muito quente. Eu não conseguia pisar no chão. Eu não conseguia ficar na cama e, continuar a ver tudo pegando fogo e aquilo voando pelo teto. Repetia e, repetia quantas vezes fosse necessário, o que queria que eu fizesse. Eu negava.
Corri pelo quarto e abri a porta, mas só havia fumaça por toda a casa. Gritei em vão. Eu não aguentava mais. Eu precisava sair. Eu precisava respirar. Em meio ao fogo e aos sussurros de quem quer que estivesse ali, atravessei o quarto novamente, correndo, em direção à porta da sacada. Eu só não percebi que a tela de proteção não estava ali. Eu caí do quinto andar.
Lá embaixo, eu só consegui pronunciar uma única frase: "Eu não vivo. Eu existo. Tenho dor."
Morri. Eles me mataram.

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