sábado, 18 de agosto de 2012

Habitualmente


O dia está apenas começando. O sol, tímido, surge por entre as janelas do quarto. Com o sono leve, ela abre os olhos sem dificuldade. Permanece um tempo olhando o relógio no criado-mudo ao lado. "Ainda posso dormir mais um pouco", pensa. Vira-se para o outro lado, parando por um estante, como se algo novo e inusitado estivesse à sua frente. Permanece imóvel. Os únicos movimentos são os dos seus olhos. Olha-o.

Ele abre os olhos abruptamente, acordando de seu sono pesado. Olha para o relógio: é chegada a hora de ir trabalhar. Mas o aconchego naqueles braços o prendia com uma força desigual. Pensa em tudo aquilo que está vivendo, cada momento, cada beijo, cada palavra com ela. Pensa em levantar da cama, mesmo com o sono ainda presente, mas sente um aperto nos ombros. Ela o impede de levantar, deitada em suas costas. "Não", ela diz. "Eu preciso sair", responde com o tom de voz sonolento. Ela mais uma vez o segura. "Fica... Só mais um pouco". "Eu preciso ir, está na hora", ele diz. "Só hoje, fica", ela o pede com uma voz melíflua. Beija o ombro direito, acaricia os cabelos, ajeita-se por trás dele, como se quisesse prendê-lo em si.

Ele pronuncia o nome dela, em tom de reprovação. Não demora muito para que ela o solte, descontente. "Sabes que eu preciso ir, e que voltarei ainda hoje. Não vais me perder, oras!", disse a ela. Ele levanta rapidamente, ainda olhando-a. Ela permanece em silêncio. "O que tens?", ele pergunta. Ela nada diz. Senta-se na cama, flexiona os joelhos, apoiando o queixo sobre eles, envolvendo as pernas com os braços. Olha-o detalhadamente enquanto ele troca de roupa. "O que tens?", ele repete, pausadamente. Ela, ainda o observando, abre um imenso sorriso. Uma lágrima corre dos olhos. "Eu vou continuar falando sozinho?", reclama, enquanto tenta arrumar os cabelos.

Ela levanta da cama, vai em direção a ele, beija-o no ombro direito, fazendo com que ele se vire para ela. "Deixa que eu faço isso", sussurra, enquanto penteia os cabelos dele. "Pronto. Assim está bom", finaliza. Ele sorri, sem jeito. Termina de se arrumar. "Eu te amo", ele a diz, beijando-a rapidamente e indo em direção à porta. Ela o puxa pelas mãos, procurando por um abraço. Olha pra ele, tocando seu rosto. "Volta bem?", pergunta. "Claro, eu volto para ti!", disse a ela, abraçando-a e beijando sua testa. "Por que estás assim? Pareces preocupada", ele pergunta. "Eu sempre me preocupo contigo. Mas, não é isso.", responde. "Então diz, o que é, por favor.", ele a suplica, ainda que com pressa. "Tens muita coisa para fazer hoje. Não te prendo mais. Vai, mas volta", responde, dando-lhe um beijo de leve nos lábios. "Fica bem?", ele a pergunta, se aproximando da porta. Ela balança o rosto, positivamente. Desvia o olhar para as mãos dele, segurando-as fortemente.

Ele dá um passo para trás, em direção à porta. Ela ainda segura suas mãos. Olha para ele, com um leve sorriso. "Vais ficar bem? Eu volto para ti, o mais rápido", ele a diz, admirando aquele belo rosto sorridente. "Fico. Eu te espero voltar. Hoje não trabalho". "Então até mais tarde! E não esqueças: eu te amo!", ele a diz, apressando seus passos. Ele fecha a porta.

Ela continua em pé, olhando para o chão. Pensa na pergunta dele: "O que tens?", respondendo-a verbalmente, em tom calmo, porém levemente melancólico: "Tu, dentro de mim".


"Eu te amo!", ela disse. Mas ele não sabia ouvir a alma.

domingo, 12 de agosto de 2012

Alguém como ela



Era uma tarde ensolarada. Daquelas em que o sol parece querer visitar a Terra para ver sua beleza mais de perto. Sentada em uma das mesas de uma conhecida rede de lanchonete, está Catherine, tomando um cappuccino.

Sem ter pensamentos fixos, aprecia a orla. Algum tempo depois, lá longe, avista um casal. Poderia ser qualquer um, se não fosse quem ela bem conhecesse. Olha novamente, na dúvida e, finalmente tem a certeza. À beira do rio, o passado de Catherine andava de mãos dadas com seu não-presente.

Observa aquele casal, faz uma resenha crítica de seus desencontros, analisa cada passo daqueles dois que poderiam ser, ainda, Catherine e ele.

Olha para a mesa. Sorri, sem alegria. Levanta a cabeça, olhando para um dos lados, na tentativa de fugir do que viu. Fechando os olhos, uma música tocava em sua mente. Uma música longa, alegre e, ao mesmo tempo, melancólica, que contava, em cada verso, todos os dias de Catherine com ele. Cada sim, cada não, cada palavra, cada lua e sol, cada dia sem ele.

Ajeitava-se na cadeira, sem saber se saía ou se ali ficava. Apertava as mãos, como se quisesse esmagar a maneira como se sentia. Respirava profundamente, na tentativa de por para dentro tudo o que transbordava.

"Quem é ela para merecer teu amor? Quem é ela para que a dediques os olhares que eram só meus?", pensava, enquanto apertava as mãos com mais força. Não desviava mais o olhar. Era algo que não conseguia ter controle. "Eu sei...", pensava. "Tu estás melhor sem mim".

Levantou-se, armada com toda a força de seu passado, do amor que ainda nutria dentro de si. Partiu, com passos lentos e firmes, em direção aquele casal. Os punhos cerrados, uma mescla de ira e afeto. Ao aproximar-se e receber olhares de atenção do casal, toda essa energia foi liberada em uma lágrima, um sorriso triste e uma frase à nova namorada: "Cuida bem dele".