sábado, 1 de setembro de 2012

Entre olhares


Era uma tarde de domingo. Ele, sentado na grama. Ela, deitada com a cabeça em suas pernas.

– Esse parque já foi mais bonito, mais cuidado. - ele diz.

– Também acho. Ou seriam nossos olhos que não veem beleza em tudo, como em nosso primeiro passeio aqui? – ela responde.

“Por que ela não pensa mais no que conquistamos, e menos no que perdemos?” – ele pensa consigo. Ele olha para um casal caminhando no parque.

– Eu sei... – ela diz. Ele a olha, esperando que prossiga, porém, ela não continua.

– Sabes o quê? – abre um sorriso indagador e acaricia os cabelos dela. Ela sorri, ajeitando o rosto na mão dele. – Esqueça. Isso não é importante. – diz em tom quase inaudível.

– Tudo que é teu é importante pra mim, sabes disso.

– Importa-te. – ela responde prontamente, olhando o casal passeando ao lado e, com um olhar triste, retorna rapidamente à mão dele.

– Importar-me? - ele diz. 

– Sim, és importante para mim. – ela responde. “Não sei se sou importante para ti da forma como desejo”, pensa.

– Então, se somos importantes um para o outro, por que estamos assim?

Ela pensou em dizer algo... Mas hesitou. Concentrando-se no carinho que ele fazia em seus cabelos negros, fechou os olhos.

– Eu te amo. – disse ele, não tendo mais palavras para falar sobre tudo o que devia.

Acariciando o rosto dela, ele sentiu a pele úmida. Uma lágrima caía.

– Por que estamos tão distantes? – disse ele, segurando as lágrimas.

– Eu temo não ser boa para ti. Não ser o que tu esperas. Não dar o que mais precisas. Talvez, por isso, eu esteja me afastando. – diz, pausadamente, com os olhos cheios de lágrimas, sem olhar para ele.

Ele, com os olhos marejados, buscando o olhar dela, responde:

– Não precisamos ser bons um para o outro. Precisamos viver, acrescentar. E compartilhar, não só as alegrias, mas tudo. Se estou contigo, é porque te quero.

Ainda em lágrimas, ela afasta o rosto da mão dele, segurando-a. Olha para ele, ainda deitada em seu colo.

– Eu preciso ser boa para ti, sim. Eu não te quero sofrendo. Eu não quero que te sintas como alguém que nada tem. Eu não quero te fazer mal algum. – diz, com a voz embargada. Ele seca uma lágrima dela com um beijo.

– Como assim, não tenho nada? – encosta a sua testa na dela. – Apenas quero que me deixes sentir também tua tristeza.

– Tu já sentes. – diz, olhando profundamente nos olhos dele. – Se não sentisses, não me farias estas perguntas.

– E o que será de nós, então? – pergunta, temendo a resposta. Ela entrelaça suas mãos nas dele, voltando os olhos vermelhos para o casal ao lado. 

– Será esse nosso destino?

– Podemos ser o que quisermos.

– O que achas?

– Não precisas me perguntar. Sabes a resposta.

Chorando, ela levanta, toca o rosto dele com uma das mãos, aproxima-se de sua boca, apoiando-se na coxa dele, apertando-a com a outra mão. Tenta dizer algo, mas os olhos cheios de lágrimas disseram muito mais do que as palavras seriam capazes de dizer. Segurou seus cabelos, beijou-o na testa. Voltou o olhar para os olhos vermelhos dele. Percorria com o olhar cada detalhe do seu rosto. Tentava sussurrar algo, mas só conseguia olhá-lo intensamente, no desespero de parar o tempo. Olhava-o com uma melancolia peculiar, porém, expressando uma alegria que ela só sentia ao estar com ele. Ele pôde ler cada lágrima, cada sentimento que o rosto dela era capaz de dizer, em silêncio. O que os lábios não disseram, o rosto e o olhar foram capazes de deixar explícito.

– Isso foi um "eu te amo"? – ele diz, beijando-a ininterruptamente.