terça-feira, 25 de junho de 2013

A vida que falta


A isotretinoína, um retinóide de uso oral derivado da vitamina A, é utilizada nas formas mais graves de acne ou acne resistente a outros tratamentos. Durante seu uso, o organismo passa a ter condições de expelir toda a oleosidade presente nas lesões. Há uma redução do sebo, e, diminuição da camada de queratina, reduzindo a inflamação e a formação da acne. Sem a mesma produção e retenção de sebo, uma bactéria chamada P. acnes não consegue se reproduzir. Por isso, no início do tratamento, é comum notar uma piora do quadro clínico, o que é uma fase transitória, e a melhora ocorre algumas semanas depois.

Qual a relação entre a farmacodinâmica da isotretinoína com a melancolia? 

Sustentar um sorriso todos os dias, distribuindo um "está tudo bem", interpretando um personagem criado em um roteiro mal escrito, vivendo as horas que não são de ninguém. Esperando o dia passar. E nessa longa espera, alguém vai sendo deixado para trás. Um sujeito que é apenas um esboço que não passou de algumas páginas. A cada espera nos dias, cada um vai deixando cair um pedacinho de si. As cicatrizes não são lembranças, são feridas abertas que tentamos desesperadamente fechar. O passado, por vezes, se torna presente, e, o que se desejava nunca mais viver, é novamente escrito. São linhas tortas, quase ilegíveis de tantos rascunhos, de tantas vírgulas e tantas reticências que... as palavras deixam de ter forças para continuar. Param ali, no meio da folha em branco, olhando para trás, sem saber como seguir. Uma letrinha a mais, e esta é apagada, com uma borracha que a vida insiste em passar. Mas, as marquinhas da letra ainda estão lá, machucadas em uma folha. Em inúmeras. 

Há coisas na vida que fazem falta. Cada um faz falta dentro de si. E, nessa ausência... os espaços vazios são preenchidos com um enorme nevoeiro. Não se pode ver o que está do outro lado... Dizem que o passado tem de ficar exatamente onde deve: no passado. Deixar sair, de alguma forma, é como morrer. Arrancar um órgão doente, para que ele não comprometa a saúde do resto do corpo. E da alma. Morre-se. Reanima-se. Hora de chocar, puxar de volta. 

No começo do tratamento da acne, há uma piora dos sintomas. Qualquer dermatologista expõe como o medicamento age no organismo. Mas, ninguém nunca nos avisou de que não há vida sem sintoma. Todos teremos que chegar ao fundo do poço - e cavar mais um pouco - para deixarmos de ser os mesmos e saber o que fazer com a vida, na falta. Apesar de. 

Viver exige suspiros. 


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Historinhas tarde da noite

O que fazer com um cérebro desgovernado, perturbado, desfeito em minúsculos pedacinhos que não fazem sequer sentido, enquanto preso aos piores caminhos, agarrado aos gritos de dor? 
O que fazer com uma sensação de vazio, com a sensação de ter caído em um poço profundo e não conseguir subir o suficiente? Parar o relógio da vida? Dar ao tempo o tempo que se foi em vão? Afogar a mente em um sono forçado?

De alguma maneira, todos nós passeamos pelo inferno, e os fantasmas da mente vêm contar suas histórias.



terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Deux


La mer peut cacher des mystères impossibles à déchiffrer. Eau profonde, l'eau froide, un souffle au milieu de la nuit. Vous ne savez pas combien il est difficile de tremper un sentiment qu'il ne peut pas être vu. Vous ne savez pas combien il est difficile de naviguer loin, qui veulent être près.

Mon désir le plus sincère est de crier. C´est toi.

Vous entendez? Peut-être pas. La mer est immense. Je ne peux pas vous trouver. Vous n'en croirez pas. Vous doutez. Peut-être qu'il n'a pas grande importance.

Je reste silencieuse. En écoutant les vagues. En écoutant la chanson du vent. Compter les étoiles. Et la lune ... La lune est à sens unique.



sábado, 9 de fevereiro de 2013

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Meia volta


Nem sempre devemos dizer sobre sentimentos que guardamos no fundo do peito. E nessa incerteza de escolher o que dizer e a quem dizer, permanecemos em silêncio, tentando pôr para dentro o que insiste em sair e assim continuamos a engolir as palavras. Expressando um vazio no lugar de um punhado de letrinhas miudinhas, tímidas.

Por vezes, a única maneira que os sentimentos têm de ver a luz do dia é em forma de sintoma. E, esses caminhos sintomáticos têm suas idas e chegadas. E, as palavras, de alguma forma, sempre voltam. O que resta para muitos é encontrar por aí algum comprimido de alprazolam.



domingo, 3 de fevereiro de 2013

Quanto tempo dura o tempo? - Microconto


Não gosto do que insiste em passar. Do que tem o direito de ir.
Da vontade própria do deixar de ser. Do tempo que não quer existir. Tenho medo do meu futuro. 
Exatamente porque talvez eu não apareça por lá quando ele vier.
Ou talvez eu só esteja, e, pouco exista.


"... Apprends-moi
Rien que ce qui compte
Ces rires fous qu'on ose
 Puisque le monde est sourd..."
 Apprends-moi - Celine Dion


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O enigma das estrelas - Microconto


O que as estrelas estão tentando me dizer? O que tentam me fazer enxergar? Algumas delas não existem mais, estou apenas vendo o brilho que somente agora é visível aos olhos. Talvez eu me identifique com este céu tão distante, mas que, por um minuto, acreditei poder tocar. O brilho das estrelas é uma ilusão. Elas não estão mais aqui para contar sua história. Deixaram seus rastros, e, alguém, em algum lugar do mundo, está a decifrar. 


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Do passado que talvez passou


Em um canto qualquer ela deixou um punhado de sentimentos. Em uma caixinha qualquer guardou as palavras. Em uma rua qualquer jogou fora as páginas rasgadas sob desespero. Não deixou suas lágrimas, pois estas secaram com o passar dos anos. O que, para ela, não representou outra coisa senão um tropeço na escada da vida. Um porta fechada.

O bom do passado é que ele já deixou de existir. Bate à porta, mas são apenas fantasmas. Não permitia voltar de onde veio. E, não se permitia mais alimentar uma culpa que sequer foi dela. O passado, passou para longe. Acenou, com um leve sorriso. "Não podes voltar. Não te quero comigo", ela poderia dizer. Mas, sorrir já basta.

Ela disse a alguém, uma vez: "Não posso deixar que as cicatrizes do meu passado alcancem quem não estava lá". É cuidar do hoje, e, de quem está nele, e finalmente dizer "Meu passado está limpo dentro de mim".



domingo, 13 de janeiro de 2013

Da histeria


Eu não sou o tipo de mulher que sai por aí e tem quantos homens desejar ou quais estiverem disponíveis. 
Eu não sou o tipo de mulher para somente uma ou duas noites.
Eu não sou o tipo de mulher que olha para qualquer pessoa. 
Eu não sou o tipo de mulher que se deita com um homem só por casualidade.
Eu não sou o tipo de mulher que é qualquer uma. 

Eu sei muito bem o que eu não sou, embora faça tudo isso. E ao fazer, cruzo os dedos para tentar lidar com a falta daquilo que deveria pertencer a mim, mas por um golpe do destino, me foi negado. Mas, nunca se trata do que eu faço. Não é isso que eu quero. É sempre outra coisa.