quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A chegada da peste*


Procuramos por aí respostas para nos livrarmos da dor. Perseguimos o caminho que nos é entregue como correto para fugirmos do sofrimento. Imploramos para que um Outro nos diga o que fazer para escaparmos do incerto. 

E assim vamos vivendo. Reproduzimos como papagaios palavras bonitas, frases empoderadas, sem ter a menor idéia do que elas realmente significam em nós e sem perceber que elas são apenas analgésicos para a dor. Paracetamol e dipirona** foram substituídos por doses de morfina contemporânea, como "Faça do jeito x e você conseguirá y", "Dicas de como superar situação z". Palavras mágicas se tornaram best-sellers em aliviar a incapacidade de elaborar a própria vida. Palestras, livros, eventos Vicodin*** surgem em cada esquina para que acreditemos que temos a chave em mãos para sermos mais felizes. Mais ativos. Mais bonitos. Mais confiantes. Mais sociáveis. Mais ricos. Mais controlados. Mais conscientes. Mais famosos. Mais queridos. 

Aquele que nos chega com a resposta certa, é como um representante de medicamentos que entra na sala de médicos, cheios de caixas de remédios para "apresentar a fórmula mais adequada para combater problema x". Deixamos de depender (tanto) de fluoxetinas e clonazepans**** para olharmos hipnotizados para o que aquele Outro nos diz. Aquilo chega aos nossos ouvidos como uma bela sinfonia, nos enchendo de oxitocina, produzida durante reconfortantes interações sociais, e, dopamina, nos empanturrando de euforia e motivação. 

"Ah, agora sim vai dar certo. Agora sim eu vou conseguir o que eu quero". 

E assim vamos vivendo. Buscando a resposta para tudo. É bem verdade que ouvimos que a resposta está dentro da gente, mas ninguém sabe exatamente o que isso quer dizer. E ninguém sabe que ao ouvir essa frase, o Outro vai nos convencendo sorrateiramente sobre o que ele acha melhor para nós. Um leve "Faça isso ou aquilo". Bem de leve mesmo, que é para continuarmos venerando aquele que pensamos saber a resposta para tudo. 

Ouvir o nosso próprio silêncio diante da vida nos gera angústia, pois escutar aquilo que não ousamos dizer, ou que mal-dizemos, é medonho. Não somos tão bonitos por dentro quanto achamos. Há muitas feiuras engavetadas mergulhadas em inúmeros "Eu não sei por que sou/me sinto assim". Não somos tão bem vindos dentro da gente como saímos dizendo pelas redes sociais, maquiado em frases como "Eu me amo e é isso que importa". Daí precisamos que o Outro, com o saber irredutível, seja responsável por nos dizer o que fazer e como agir, sempre. 

Somos surdos em ouvir o nosso silêncio. Surdos, mais ainda, para ouvir nossos gritos abafados numa suposta liberdade que sequer alivia nossa ansiedade. Achamos que seguindo dica x ou y seremos livres dos nossos demônios. E, por fim, nos tornamos cegos, pois ninguém consegue olhar para os demônios que habitam dentro da gente. Vemos o olhinho vermelho. O resto é bom deixar no escuro mesmo. 

Queremos sair de relacionamentos fracassados. Queremos melhorar a forma como tratamos nós mesmos. Queremos atingir o máximo de performance (seja lá o que isso signifique). Mas não queremos nos livrar de nada disso. Ao mesmo tempo que buscamos a cura, somos atropelados por nossas urgências que insistem em nos manter naquele limbo. Confundimos querer com desejo, e acabamos por nos distrairmos com nossos erros veementemente negados e meias verdades exaustivamente jogadas de qualquer jeito, para qualquer um acreditar. 

Há quem acredite que é só sair de um relacionamento para livrar-se dele. Há quem acredite que dietas causam descontrole ou compulsão. Há quem acredite que fulano parou de comer porque tem um problema com a comida. Há quem acredite que viajar o mundo acalma nossa ânsia de fugir de algo. Há quem acredite que deixar a família para trás resolverá os conflitos internos. Há quem acredite que para alcançar algo é só querer. Há quem acredite que não se é feliz por culpa de fulano. Há quem acredite que tudo dá errado por azar. 

O que ninguém parece perceber é que a maior angústia da vida é não haver tantas (ou pouquíssimas) respostas para ela, e, sem respostas, não há controle total sobre o que somos/como estamos/como nos sentimos. 

Buscar a atenção e o controle pleno, a tão almejada cura, é a nossa grande defesa para angústia que é a trágica condição humana e o viver. 



*Peste: metáfora para falar da psicanálise. Freud, em 1909, nos EUA, teria dito a Jung algo como "Eles não sabem que estou trazendo a peste?"
**Paracetamol e dipirona: medicamentos com ação antipirética e analgésica não-opióide
***Vicodin: medicamento opióide composto de paracetamol e hidrocodona. 
**** Fluoxetina e clonazepam: medicamentos antidepressivo ISRS e benzodiazepínico, respectivamente. Conhecidos popularmente pelos nomes comerciais Prozac e Rivotril.  


quinta-feira, 30 de novembro de 2017

A garota ideal


Sentada no sofá, numa noite qualquer, anos atrás, assisti a um filme que, primeiramente, pensei se tratar de uma comédia romântica. Dessas que se assemelham a filmes estrelados por Jennifer Lopez (Encontro de amor, 2002) ou Sandra Bullock (Amor à segunda vista, 2002). Lá estava eu, assistindo, tarde da noite, a um filme que acreditava ser apenas um passatempo, e que acabou por me tirar o sono. 

Não se trata de um drama, embora o filme aborde um tema delicado, tampouco é uma comédia, embora seja leve, e, em muitos momentos, engraçado. Depois de ter assistido a esse filme por 3 vezes, ainda não sei defini-lo. E nem creio que preciso. Eu o faria apenas para aliviar a mania que, ainda, temos em classificar as coisas, e pessoas. 

O diretor do filme A Garota Ideal (2007) soube brincar cuidadosamente com o roteiro. Nem tão obscuro e denso, nem jocoso ou estereotipado demais. O filme encara o delírio de uma maneira leve e... elementar. 

Sim. O delírio. As cabecinhas da maioria das pessoas imaginam um amontoado de histórias terríveis quando se fala em delírio e/ou psicose - termos semelhantes, mas diferentes, onde, por vezes, um existe sem o outro. Ao menos para a psicanálise. 

Existe um estigma fortíssimo quando se fala desse assunto, carregado de olhares tortos, medo, dúvidas e um punhado de conceitos distorcidos. Afinal, louco e psicótico é aquele que vivia em manicômios, não falava nada com nada, não merecia a confiança de ninguém (muito menos afeto). E era um ser que precisava ser isolado de todos à sua volta. 

Eu diria que o pior do delírio não é o delírio em si, por mais dolorido que seja, e sim o tratamento que se segue após o diagnóstico. Uns falam em internação, alguns outros falam em abandono. Internação e abandono, nesse sentido, podem ser sinônimos. Em tempos patologização das emoções e medicações psiquiátricas prescritas em larga escala para curar (risos) um sintoma, quem diria que uma alternativa possível seria acolher o delírio do sujeito? Em outras palavras, ajudar o sujeito a contar sua própria história. 

Resumidamente, sem estragar a beleza do filme, o longa nos apresenta Lars, um rapaz introvertido, "esquisito", tímido e que não consegue estabelecer laços sociais. Em um dia qualquer, apresenta à sua família sua nova namorada, para a surpresa de todos. O que poderia ser um alívio, se torna extremamente confuso quando a sua namorada é... uma boneca. 

Um detalhe precisa ser dito: a sua namorada é real. Uma boneca, para qualquer um. Para ele, alguém como qualquer um de nós. Além de ser uma boneca, possui características muito peculiares de Lars. Oras, o delírio é dele. Ambos não têm mãe, ambos são muito introvertidos, ambos sentem receio em falar com as pessoas. Ambos não falam a mesma língua que os outros, metaforicamente apresentado com o fato de Bianca ser estrangeira. 

O que me tirou o sono (e lágrimas) quando assisti pela primeira vez, foi a médica de família (clínica geral, em terras tupiniquins ou em se tratando de SUS) e sua recomendação mais que incomum, em tempos de olanzapina e escitalopram: retirar o delírio? Na-na-ni-na-não! Continue com ele. 

Alguns podem facilmente se identificar com o irmão de Lars, visivelmente incomodado com o que ocorre com o rapaz. Afinal, como assim manter um sintoma? Quem faz isso? Quem acolhe o delírio do outro? E quem, abraçando o delírio, mesmo sem entender bulhufas, se despe de julgamentos? O filme até nos mostra indivíduos confusos e críticos em relação a Lars, que não passam de figurantes no contexto em que ele vive. O dedinho apontado nos é apresentado como algo mínimo e sem a real importância terapêutica. Melhor ainda, o dedo é apontado para cada espectador que começa a julgar, e, consequentemente, desqualificar o delírio de Lars. Algo como "É realmente só isso que você poderia fazer pelo outro?". Um banho de água fria. Congelante. Um elegante tapa na cara, por assim dizer. 

*Alguns spoilers a partir do próximo parágrafo*

Provavelmente, o ponto chave do filme não seja o delírio do protagonista, e sim como uma comunidade, mesmo sem entender o que estava acontecendo, sustentava o delírio de Lars. Comunidade que ao longo do tempo fortalece seus laços sociais a partir do delírio de Lars. Em determinado momento, o irmão de Lars e sua esposa pediram ajuda aos membros da igreja para lidar com o Lars. Diante de muitos resistentes em aceitar a loucura que seria aquela realidade, uma senhora teve a sensibilidade de dar exemplos de fatos indizíveis sobre parentes de cada um dos presentes - deixando-os embaraçados sobre "a descoberta" - fatos que sempre gostaríamos de colocar debaixo do tapete para que ninguém saiba o quão podre e em pedaços podemos ser. E ao final, emendou o fatídico: "Essas coisas acontecem mesmo. Conte comigo". Sim, com todos nós. Qualquer um poderia estar no lugar de Lars ou passar por algo semelhante. Ou pior. 

Com o passar dos dias, a comunidade passa a perceber que não há uma receita de bolo em relação ao delírio de Lars. A única questão é: Bianca é real, como qualquer morador da cidade. Por que tratá-la diferente (como uma boneca) se ela é real? O irmão de Lars até tenta dizer a ele que ela não existe, que aquilo tudo está somente na mente dele, o que é prontamente ignorado. Não há outra realidade possível, ou suportável, do que aquela que Lars construiu: Bianca é um ser humano. Tão ser humano que até os paramédicos a socorrem. 

Isso é um ponto interessante. Geralmente, o comum é tentar dizer à pessoa delirante/psicótica de que aquilo não existe. Ou pior ainda: de que aquilo é uma mentira. Para o psicótico, é uma violência sem limites. É cruel, desumano. É como se alguém dissesse a você que seu nome não é X, nunca foi, e que sua família é aquela outra e que agora você terá que obrigatoriamente viver na casa de outra família. É confuso, lhe pareceria absurdo e inconcebível aos seus olhos, porque essa é a sua realidade. Como assim alguém diz o contrário sendo que o que você vive com as pessoas ao seu redor é tão real? 

É necessário muito cuidado com o delírio. Ninguém sabe o que pode acontecer quando alguém de boa vontade (ou não) destrói o delírio do sujeito. É como empurrar alguém para cair sob os trilhos, com o trem se aproximando. Retira-se o sentido, retira-se a base do sujeito em prosseguir com a vida. O tratamento mais humano é, por mais confuso que seja, sustentar aquele delírio. Afinal, ele existe por um motivo. 

Buscar entender e encaixar causas para que aquilo faça sentido para os outros é um tiro no escuro. Ninguém saberá com exatidão. Querer a todo custo saber as causas ainda é uma tentativa esdrúxula de aniquilar o delírio do sujeito, pois exterminando, não será mais incômodo. Querer a todo custo buscar causas é deixar de escutar o sujeito para ter para si o alívio de não saber mais daquilo. E aí caímos nos DSMs e CIDs da vida, onde classificamos o sujeito e o colocamos dentro de uma caixinha, retirando sua subjetividade. O sujeito deixa de ser sujeito desejante e inventivo para ser um diagnóstico fechadinho. O sujeito deixa de ter um nome para ser "o bipolar", "o esquizofrênico". Isso quando não o chamam de outros termos comuns e pejorativos. 

O delírio existe por um motivo nem sempre compreensível e "adequado", aos olhos dos outros. E continuará existindo até quando for necessário. Até o momento em que Lars, no caso, sentir que consegue viver sem ele. Pode durar algum tempo, como pode durar a vida inteira. É muito interessante como Lars vai se desfazendo de seu delírio ao longo do filme. É curioso a forma como ele encontrou para elaborar sua dor, quase como o desfraldar da criança. Utiliza a boneca para transitar entre duas realidades. Aliás, o título original do filme (Lars and the real girl) se encaixa muito melhor do que o título adaptado para o português: A garota ideal, dando uma ideia distorcida ao espectador. Não se trata de idealizar o outro em um relacionamento a dois. 

Delirar é como aqueles vídeos tutoriais espalhados pelo YouTube, em que pessoas criam roupas novas a partir de tralhas no guarda-roupas. Customizam roupas, objetos de madeira, caixas, sofás, ou o que tiver disponível e o que a criatividade apontar. É o tal Do It Yourself (Faça você mesmo/Bricolage). Você pode não ser um especialista naquilo, mas se vira com o que tem e cria algo novo. O delírio passa por aí! Inventa uma realidade para se virar com o que tem em mãos. 

O filme nos mostra uma invenção muito própria e pessoal por parte do sujeito. Às vezes não nos resta outra alternativa, senão delirar. O delírio é uma tentativa, muitas vezes bem sucedida, de contornar o real. É um filme sobre solidão, afeto, relações sociais. É um filme sobre o amor. 


segunda-feira, 30 de outubro de 2017

A minha primeira vez


Eu vinha pensando sobre isso há algum tempo. Eu ainda era bem nova e sempre me questionava se eu estava pronta para isso (E quem realmente está?). Fui aos poucos amadurecendo a ideia de estar sozinha com alguém e... completamente nua. O quão estranho pode ser você entregar a uma outra pessoa um pedaço (ou um inteiro) de si sem ter ideia do que acontecerá depois?

Eu era insegura demais. Tímida demais. Mal conseguia falar sobre o que eu sentia, imagina ter a responsabilidade de marcar um encontro e me abrir completamente para alguém... Com a devida licença poética da palavra.

Prometi a mim mesma que não falaria sobre isso com ninguém. Talvez julgassem que eu fosse imprudente, jovem demais e talvez me arrependeria... ou pior, que não havia necessidade daquilo! Cruzes! Eu queria que alguém me ajudasse com as inúmeras dúvidas, não que me deixasse mais ansiosa.

Eu precisava daquilo. A falta estava consumindo a minha existência. Aquilo não saía da minha cabeça. Dia e noite eu me questionava se era a hora de fazer. E se eu não gostasse? E se eu gostasse? E se me machucasse? E se eu me frustrasse? Poderia eu fingir que nada havia acontecido? E se alguém descobrisse?

Decidi, após noites em claro, que eu tinha de fazer aquilo. Eu não suportava mais a falta e a minha incapacidade de lidar com o fato. Tão logo amanhecesse, planejaria o dia tão esperado. Ou tão pedido. Dizem que a primeira vez nunca se esquece. Mal podia conter o alívio ao saber que eu deixaria de ser quem eu era. Ou de ter o que eu ainda tinha. Em partes.

Na véspera, o desespero. Comecei a me questionar se eu havia tomado a decisão correta. Minha tia, percebendo minha inquietação, veio falar comigo. Nesse momento, era a única que sabia o que me esperava. Não me contive! Tinha de contar para pelo menos uma pessoa.

- Por que tão ansiosa?

- É algo grande o que está para acontecer.

Ela riu. Não entendi a piada. Eu era ingênua, aparentemente.

- Ele vai me foder! - reclamei em voz alta.

- O objetivo é esse, querida. - dizia, enquanto tomava seu café, muito tranquilamente. - E com o tempo, vai ser com força. Um dia você vai entender o porquê.

Olhei assustada para ela. Como que as pessoas fazem isso sem nenhum constrangimento ou vergonha?

- Estou com medo...

- Ah, não... Não precisa. Você vai gostar. Vai querer mais. Talvez precise fazer mais vezes durante a semana.

Suspirei fundo. Ainda me perguntava como as pessoas fazem algo que pode machucá-las.

- Você vai descobrir o seu gozo.

- Essa é a pior parte.

- Por que?

- Porque eu não sei o que vou fazer com isso.

- Ninguém sabe... isso leva tempo.

Odiava me dar conta de que eu era inexperiente naquilo. Fui dormir pensativa e preocupada. E me sentindo uma boba. Tentei dizer para mim mesma que com todo mundo era assim, no começo. Era o meu único consolo. Em todos os sentidos.

(...)

Acordei atrasada. Decidi não ir. Decidi ligar e dizer que naquele momento eu não estava pronta. Decidi dizer que não tinha coragem. Ainda. Decidi dizer que apenas o faria por pressão dos outros. Mentira... Ninguém sabia. Decidi ir. Decidir não ligar. E de novo decidi não ir, definitivamente. E aí decidi me arrumar e sair. Meu Deus, que indecisão.
 
Tomei banho e coloquei uma roupa qualquer. Afinal, a roupa era o que menos importava. Ou talvez fosse importante para uma primeira impressão... Eu não sabia bem. Troquei de roupa.

Olhava os ponteiros do relógio e percebi que a hora estava chegando. Meu coração quase saiu pela boca enquanto eu caminhava pela rua. Ainda dava tempo de dar meia volta. Quase o fiz, se não fosse a minha falta.

Toquei a campainha. Silêncio. Ainda dava tempo de sumir.

Silêncio. Eu ainda estava ali.

Ele abriu a porta. Uma porta branca, com um lindo tapete vinho na entrada... Ah, quem estou querendo enganar? Isso pouco importa.

Entrei. Sorri o sorriso mais sem graça do mundo inteiro. Quase abri a porta e saí correndo. Sentei no sofá, bastante confortável, inclusive. "É agora? Vai ser aqui?", me perguntei.

Ele me perguntou como eu estava. Oras... Não era óbvio que eu nunca havia feito isso antes? Eu estava com as mãos tremendo, sentia que minha alma estava se despedindo de mim. Senti a boca seca, um frio na barriga e vontade de gritar. Pensei em dizer "Vamos acabar logo com isso", mas seria deselegante. Quem falaria isso? E então pensei em perguntar se demoraria muito. Que broxante... A gente pensa cada bobagem nessas horas...

Eu não sabia por onde começar. Eu me senti completamente nua. Sem ter tirado a roupa. Tinha a certeza de que ele sabia exatamente o que eu estava pensando. Tinha de saber. Ele se mostrou muito paciente. E eu estava um furacão por dentro. Uma mistura de excitação, vergonha, medo, insegurança.

Começamos.

(...)

Saí sem palavras. Muda. Perplexa com o que eu vi e ouvi. Foi ensurdecedor! Senti que algo havia entrado em mim e, ao mesmo tempo, senti que alguma coisa havia saído. Machucou. Posso dizer que sangrou um pouco. Quase chorei de dor. Me senti encurralada várias vezes, mas eu queria mais. Precisava de mais.

Fazer análise é um processo lindamente trabalhoso. A primeira vez não precisa ser boa. Nunca é. 


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Pare de ouvir verdades


Antes de mais nada, me desculpe por escrever isso. Eu não queria ter de dizer essas palavras. Mesmo. Ou melhor, lê-las. Talvez seja impossível verbalizar isso. Talvez, eu tenha medo de escutar aquilo que eu quero dizer a você. Não queria fazer nada disso. Mas ela me obriga. Tudo o que está acontecendo é por culpa dela. No meu entendimento, estamos numa espécie de triângulo amoroso. Mas, não é só coisa da minha cabeça. Eu sei, tenho certeza que isso está acontecendo. Já ouvi falar que para haver uma tal de transferência num processo de análise, você meio que tem de amar o analista. Ou se apaixonar, blá blá blá. Que porra é essa? Quanto você a ama? Não me diga que estou louca, por favor. Não me diga que não entendo a complexidade das palavras desse tal Lacan. Isso pode até ser verdade, mas eu sei muito bem o que significam esses encontros. Explico.

Não me leve a mal, mas eu não gosto dela. Desde que você começou com essa história de ir à sua analista, eu tenho ficado desconfiada. O que vocês tanto conversam? Vocês falam de mim? Pior, você fala mal de mim pra ela? É isso? Eu odeio quando você sai de casa para encontrar com ela. Sinto um aperto no peito, um nó na garganta. Eu me sinto exposta. Como se todo mundo soubesse dos meus piores medos e pecados. Eu me sinto ameaçada. Como se eu fosse ser extinta a qualquer momento. Como você pode ir falar de mim sobre coisas que eu não sei? Por que você precisa ir até ela e dizer meu nome? O que vocês estão tramando? 

Confesso que tenho medo. Vai que essas conversas te fazem ver coisas que te façam parar de me amar. Vai saber o que essa mulher coloca na sua cabeça. Vai que um dia você descobre que eu não valho tanto assim. E se um dia você sentir que não faz sentido me amar? E se você descobrir que há outra mulher melhor do que eu? 

Pare de ouvir verdades. Eu sei que você sempre diz que a verdade é sempre mentirosa e que depende do ponto de vista. Mas mesmo assim, tenho medo de você acreditar nessa verdade. 

Eu não gosto dela. Se eu pudesse, nunca mais você a veria. 

Ei, espera um pouco... eu posso acabar com isso.


quinta-feira, 6 de julho de 2017

Pedacinhos de papel


Eu não sei como começar a dizer isso. Palavras e sentimentos que nunca são ditos parecem não fazer sentido dentro da minha mente. Estou tentando organizar frases que se perdem em meio às lágrimas. Você não imagina como é difícil sentir-se o tempo todo escondido e esquecido no lado de dentro. Eu não sei se eu grito para a vida ou me calo diante dela. 

Mesmo dormindo, eu não descanso. Já quis parar a montanha russa permanente na qual vivo. Dessas que me tiram o fôlego. Dessas que mal tenho onde me segurar. Já pedi uma resposta dos Céus ou uma visita de anjos divinos. Sequer fui ouvida.

Meus dias são cinzas, esquisitos, vividos sem sorrisos. As horas viram dias, os dias viram semanas, semanas viram anos ininterruptos, num eterno antes e depois angustiantes. Passo horas sem entender o antes e mais semanas com receio do depois. Tudo se resume a uma dualidade tempestuosa. 

Meu sorriso, minha mania de andar sem roupa pela casa, meus momentos ao cantar em voz alta, minhas tentativas frustradas em estabelecer laços sociais se perdem no meio do escuro. Parece já não me assustar tanto o fato do escuro estar sempre presente, embora eu ainda procure um sinalizador para pedir resgate daqui de dentro. 

Por pequenos momentos, eu me pego sendo mais leve, menos nublado. Talvez eu odeie seja lá quem, que nunca me avisou com antecedência do abismo da vida. Continuo na iminência de pular e cair no vazio que preenche o espaço aqui dentro. 

Talvez, na próxima semana, nada disso faça sentido e eu esteja rindo e feliz como uma criança como se nada tivesse acontecido. Ou talvez pedaços de mim sejam jogados pela janela, embrulhados em um papel, onde está escrito: "Por que eu sou tão invisível"? 


terça-feira, 20 de junho de 2017

Tapete felpudo


Sentada na recepção do consultório do psiquiatra, ainda sem saber exatamente o que faço aqui, vejo, pouco a pouco, outros pacientes chegando. Alguns outros, com uma expressão facial que não consigo decifrar, saem do consultório com uma prescrição cheia de nomes. Eu me pergunto se cada paciente sai satisfeito com seu atendimento. Se era isso que esperava (remédios) ou se houve algum sentimento de frustração (mais remédios?) e nenhuma resposta. Embora eu saiba que as respostas nunca são encontradas em 30 minutos de atendimento, ao contrário do que gostaríamos. 

As respostas deveriam ser nossas vizinhas, para quem sempre recorremos quando falta açúcar ou trigo na receita de bolo da vida. A resposta parece que gosta de se esconder da gente. Menina sapeca que nos escapa pelas mãos. Talvez a resposta tenha exatamente essa função: viver desaparecida, longe dos nossos olhos. Se a prendêssemos em nossos dedos, talvez nunca a veríamos como resposta. Acho que se cada paciente pudesse resumir-se em uma única frase, diria "Me diga o que fazer para acabar com meu sofrimento. Me dê a resposta"

Ainda sigo me perguntando o que faço aqui. O que me mantém presa à cadeira da clínica do psiquiatra. Mais comprimidos para aliviar meu sofrimento. Ou aumento na dose dos vários medicamentos que já tomo. Ainda sigo me perguntando se eu realmente quero aliviar meu sofrimento. Ele faz parte de mim. Por mais que eu queira acordar com a morte deitada ao meu lado, é o sofrimento que ainda me mantém viva. Tão perturbador, e ainda assim tão companheiro. Tão dilacerante, e ainda assim tão eu. Um pouco de mim se vai a cada comprimido ingerido. Não sei mais dizer o quanto resta de mim na ausência de sintomas. 

Se eu me sinto tão solitária, não compreendida, insuficiente, angustiada, disfórica, o que sobra sem os sintomas? Que parte de mim precisa ser silenciada para que eu volte a ser o que era antes se eu nunca fui quem eu quis ou poderia ser? O que estou tentando varrer para debaixo do tapete felpudo Apolo da recepção do psiquiatra? 

Ainda sentada, ouço uma moça, por volta de seus 40 anos, brigar com um adolescente, em voz baixa. Seu filho, talvez? Ela diz que não sabe por que o rapaz abandona o tratamento. Gostaria de dizer a ela que ele se sente sozinho. E que não se sente ouvido. Pior: que não é convidado a falar suas próprias meias verdades. Permaneço em silêncio. Nem sempre devemos falar o que queremos e nem sempre o outro está pronto para ouvir. 

Mas cá entre nós, comprimidos não nos ouvem. Não cuidam de nós quando mais precisamos. Não nos abraçam. Ainda não soube de um comprimido que pudesse conversar comigo. E, talvez, o mais importante: Não há comprimido que me ame. E que eu ame de volta. Ou odeie. Não há relação alguma entre mim e um pedacinho de pó. Não há comprimido que preencha a solidão. Longe de mim querer que todo mundo nunca precise deles! Eles ainda tentam nos ensinar a fazer a receita de bolo recheado de vida com cobertura de bem estar. E às vezes é bem bom ter a receita pronta para degustar alguns pedaços desse bolo saborosíssimo. 

Ainda me pergunto o que eu faço aqui. Só existo a partir do meu sintoma. Para que anestesiá-lo se me calar não me faz mais pertencente a mim? Não é de 10mg de olanzapina que eu preciso.