Procuramos por aí respostas para nos livrarmos da dor. Perseguimos o caminho que nos é entregue como correto para fugirmos do sofrimento. Imploramos para que um Outro nos diga o que fazer para escaparmos do incerto.
E assim vamos vivendo. Reproduzimos como papagaios palavras bonitas, frases empoderadas, sem ter a menor idéia do que elas realmente significam em nós e sem perceber que elas são apenas analgésicos para a dor. Paracetamol e dipirona** foram substituídos por doses de morfina contemporânea, como "Faça do jeito x e você conseguirá y", "Dicas de como superar situação z". Palavras mágicas se tornaram best-sellers em aliviar a incapacidade de elaborar a própria vida. Palestras, livros, eventos Vicodin*** surgem em cada esquina para que acreditemos que temos a chave em mãos para sermos mais felizes. Mais ativos. Mais bonitos. Mais confiantes. Mais sociáveis. Mais ricos. Mais controlados. Mais conscientes. Mais famosos. Mais queridos.
Aquele que nos chega com a resposta certa, é como um representante de medicamentos que entra na sala de médicos, cheios de caixas de remédios para "apresentar a fórmula mais adequada para combater problema x". Deixamos de depender (tanto) de fluoxetinas e clonazepans**** para olharmos hipnotizados para o que aquele Outro nos diz. Aquilo chega aos nossos ouvidos como uma bela sinfonia, nos enchendo de oxitocina, produzida durante reconfortantes interações sociais, e, dopamina, nos empanturrando de euforia e motivação.
"Ah, agora sim vai dar certo. Agora sim eu vou conseguir o que eu quero".
E assim vamos vivendo. Buscando a resposta para tudo. É bem verdade que ouvimos que a resposta está dentro da gente, mas ninguém sabe exatamente o que isso quer dizer. E ninguém sabe que ao ouvir essa frase, o Outro vai nos convencendo sorrateiramente sobre o que ele acha melhor para nós. Um leve "Faça isso ou aquilo". Bem de leve mesmo, que é para continuarmos venerando aquele que pensamos saber a resposta para tudo.
Ouvir o nosso próprio silêncio diante da vida nos gera angústia, pois escutar aquilo que não ousamos dizer, ou que mal-dizemos, é medonho. Não somos tão bonitos por dentro quanto achamos. Há muitas feiuras engavetadas mergulhadas em inúmeros "Eu não sei por que sou/me sinto assim". Não somos tão bem vindos dentro da gente como saímos dizendo pelas redes sociais, maquiado em frases como "Eu me amo e é isso que importa". Daí precisamos que o Outro, com o saber irredutível, seja responsável por nos dizer o que fazer e como agir, sempre.
Somos surdos em ouvir o nosso silêncio. Surdos, mais ainda, para ouvir nossos gritos abafados numa suposta liberdade que sequer alivia nossa ansiedade. Achamos que seguindo dica x ou y seremos livres dos nossos demônios. E, por fim, nos tornamos cegos, pois ninguém consegue olhar para os demônios que habitam dentro da gente. Vemos o olhinho vermelho. O resto é bom deixar no escuro mesmo.
Queremos sair de relacionamentos fracassados. Queremos melhorar a forma como tratamos nós mesmos. Queremos atingir o máximo de performance (seja lá o que isso signifique). Mas não queremos nos livrar de nada disso. Ao mesmo tempo que buscamos a cura, somos atropelados por nossas urgências que insistem em nos manter naquele limbo. Confundimos querer com desejo, e acabamos por nos distrairmos com nossos erros veementemente negados e meias verdades exaustivamente jogadas de qualquer jeito, para qualquer um acreditar.
Há quem acredite que é só sair de um relacionamento para livrar-se dele. Há quem acredite que dietas causam descontrole ou compulsão. Há quem acredite que fulano parou de comer porque tem um problema com a comida. Há quem acredite que viajar o mundo acalma nossa ânsia de fugir de algo. Há quem acredite que deixar a família para trás resolverá os conflitos internos. Há quem acredite que para alcançar algo é só querer. Há quem acredite que não se é feliz por culpa de fulano. Há quem acredite que tudo dá errado por azar.
O que ninguém parece perceber é que a maior angústia da vida é não haver tantas (ou pouquíssimas) respostas para ela, e, sem respostas, não há controle total sobre o que somos/como estamos/como nos sentimos.
Buscar a atenção e o controle pleno, a tão almejada cura, é a nossa grande defesa para angústia que é a trágica condição humana e o viver.
*Peste: metáfora para falar da psicanálise. Freud, em 1909, nos EUA, teria dito a Jung algo como "Eles não sabem que estou trazendo a peste?"
**Paracetamol e dipirona: medicamentos com ação antipirética e analgésica não-opióide
***Vicodin: medicamento opióide composto de paracetamol e hidrocodona.
**** Fluoxetina e clonazepam: medicamentos antidepressivo ISRS e benzodiazepínico, respectivamente. Conhecidos popularmente pelos nomes comerciais Prozac e Rivotril.





