quinta-feira, 30 de novembro de 2017

A garota ideal


Sentada no sofá, numa noite qualquer, anos atrás, assisti a um filme que, primeiramente, pensei se tratar de uma comédia romântica. Dessas que se assemelham a filmes estrelados por Jennifer Lopez (Encontro de amor, 2002) ou Sandra Bullock (Amor à segunda vista, 2002). Lá estava eu, assistindo, tarde da noite, a um filme que acreditava ser apenas um passatempo, e que acabou por me tirar o sono. 

Não se trata de um drama, embora o filme aborde um tema delicado, tampouco é uma comédia, embora seja leve, e, em muitos momentos, engraçado. Depois de ter assistido a esse filme por 3 vezes, ainda não sei defini-lo. E nem creio que preciso. Eu o faria apenas para aliviar a mania que, ainda, temos em classificar as coisas, e pessoas. 

O diretor do filme A Garota Ideal (2007) soube brincar cuidadosamente com o roteiro. Nem tão obscuro e denso, nem jocoso ou estereotipado demais. O filme encara o delírio de uma maneira leve e... elementar. 

Sim. O delírio. As cabecinhas da maioria das pessoas imaginam um amontoado de histórias terríveis quando se fala em delírio e/ou psicose - termos semelhantes, mas diferentes, onde, por vezes, um existe sem o outro. Ao menos para a psicanálise. 

Existe um estigma fortíssimo quando se fala desse assunto, carregado de olhares tortos, medo, dúvidas e um punhado de conceitos distorcidos. Afinal, louco e psicótico é aquele que vivia em manicômios, não falava nada com nada, não merecia a confiança de ninguém (muito menos afeto). E era um ser que precisava ser isolado de todos à sua volta. 

Eu diria que o pior do delírio não é o delírio em si, por mais dolorido que seja, e sim o tratamento que se segue após o diagnóstico. Uns falam em internação, alguns outros falam em abandono. Internação e abandono, nesse sentido, podem ser sinônimos. Em tempos patologização das emoções e medicações psiquiátricas prescritas em larga escala para curar (risos) um sintoma, quem diria que uma alternativa possível seria acolher o delírio do sujeito? Em outras palavras, ajudar o sujeito a contar sua própria história. 

Resumidamente, sem estragar a beleza do filme, o longa nos apresenta Lars, um rapaz introvertido, "esquisito", tímido e que não consegue estabelecer laços sociais. Em um dia qualquer, apresenta à sua família sua nova namorada, para a surpresa de todos. O que poderia ser um alívio, se torna extremamente confuso quando a sua namorada é... uma boneca. 

Um detalhe precisa ser dito: a sua namorada é real. Uma boneca, para qualquer um. Para ele, alguém como qualquer um de nós. Além de ser uma boneca, possui características muito peculiares de Lars. Oras, o delírio é dele. Ambos não têm mãe, ambos são muito introvertidos, ambos sentem receio em falar com as pessoas. Ambos não falam a mesma língua que os outros, metaforicamente apresentado com o fato de Bianca ser estrangeira. 

O que me tirou o sono (e lágrimas) quando assisti pela primeira vez, foi a médica de família (clínica geral, em terras tupiniquins ou em se tratando de SUS) e sua recomendação mais que incomum, em tempos de olanzapina e escitalopram: retirar o delírio? Na-na-ni-na-não! Continue com ele. 

Alguns podem facilmente se identificar com o irmão de Lars, visivelmente incomodado com o que ocorre com o rapaz. Afinal, como assim manter um sintoma? Quem faz isso? Quem acolhe o delírio do outro? E quem, abraçando o delírio, mesmo sem entender bulhufas, se despe de julgamentos? O filme até nos mostra indivíduos confusos e críticos em relação a Lars, que não passam de figurantes no contexto em que ele vive. O dedinho apontado nos é apresentado como algo mínimo e sem a real importância terapêutica. Melhor ainda, o dedo é apontado para cada espectador que começa a julgar, e, consequentemente, desqualificar o delírio de Lars. Algo como "É realmente só isso que você poderia fazer pelo outro?". Um banho de água fria. Congelante. Um elegante tapa na cara, por assim dizer. 

*Alguns spoilers a partir do próximo parágrafo*

Provavelmente, o ponto chave do filme não seja o delírio do protagonista, e sim como uma comunidade, mesmo sem entender o que estava acontecendo, sustentava o delírio de Lars. Comunidade que ao longo do tempo fortalece seus laços sociais a partir do delírio de Lars. Em determinado momento, o irmão de Lars e sua esposa pediram ajuda aos membros da igreja para lidar com o Lars. Diante de muitos resistentes em aceitar a loucura que seria aquela realidade, uma senhora teve a sensibilidade de dar exemplos de fatos indizíveis sobre parentes de cada um dos presentes - deixando-os embaraçados sobre "a descoberta" - fatos que sempre gostaríamos de colocar debaixo do tapete para que ninguém saiba o quão podre e em pedaços podemos ser. E ao final, emendou o fatídico: "Essas coisas acontecem mesmo. Conte comigo". Sim, com todos nós. Qualquer um poderia estar no lugar de Lars ou passar por algo semelhante. Ou pior. 

Com o passar dos dias, a comunidade passa a perceber que não há uma receita de bolo em relação ao delírio de Lars. A única questão é: Bianca é real, como qualquer morador da cidade. Por que tratá-la diferente (como uma boneca) se ela é real? O irmão de Lars até tenta dizer a ele que ela não existe, que aquilo tudo está somente na mente dele, o que é prontamente ignorado. Não há outra realidade possível, ou suportável, do que aquela que Lars construiu: Bianca é um ser humano. Tão ser humano que até os paramédicos a socorrem. 

Isso é um ponto interessante. Geralmente, o comum é tentar dizer à pessoa delirante/psicótica de que aquilo não existe. Ou pior ainda: de que aquilo é uma mentira. Para o psicótico, é uma violência sem limites. É cruel, desumano. É como se alguém dissesse a você que seu nome não é X, nunca foi, e que sua família é aquela outra e que agora você terá que obrigatoriamente viver na casa de outra família. É confuso, lhe pareceria absurdo e inconcebível aos seus olhos, porque essa é a sua realidade. Como assim alguém diz o contrário sendo que o que você vive com as pessoas ao seu redor é tão real? 

É necessário muito cuidado com o delírio. Ninguém sabe o que pode acontecer quando alguém de boa vontade (ou não) destrói o delírio do sujeito. É como empurrar alguém para cair sob os trilhos, com o trem se aproximando. Retira-se o sentido, retira-se a base do sujeito em prosseguir com a vida. O tratamento mais humano é, por mais confuso que seja, sustentar aquele delírio. Afinal, ele existe por um motivo. 

Buscar entender e encaixar causas para que aquilo faça sentido para os outros é um tiro no escuro. Ninguém saberá com exatidão. Querer a todo custo saber as causas ainda é uma tentativa esdrúxula de aniquilar o delírio do sujeito, pois exterminando, não será mais incômodo. Querer a todo custo buscar causas é deixar de escutar o sujeito para ter para si o alívio de não saber mais daquilo. E aí caímos nos DSMs e CIDs da vida, onde classificamos o sujeito e o colocamos dentro de uma caixinha, retirando sua subjetividade. O sujeito deixa de ser sujeito desejante e inventivo para ser um diagnóstico fechadinho. O sujeito deixa de ter um nome para ser "o bipolar", "o esquizofrênico". Isso quando não o chamam de outros termos comuns e pejorativos. 

O delírio existe por um motivo nem sempre compreensível e "adequado", aos olhos dos outros. E continuará existindo até quando for necessário. Até o momento em que Lars, no caso, sentir que consegue viver sem ele. Pode durar algum tempo, como pode durar a vida inteira. É muito interessante como Lars vai se desfazendo de seu delírio ao longo do filme. É curioso a forma como ele encontrou para elaborar sua dor, quase como o desfraldar da criança. Utiliza a boneca para transitar entre duas realidades. Aliás, o título original do filme (Lars and the real girl) se encaixa muito melhor do que o título adaptado para o português: A garota ideal, dando uma ideia distorcida ao espectador. Não se trata de idealizar o outro em um relacionamento a dois. 

Delirar é como aqueles vídeos tutoriais espalhados pelo YouTube, em que pessoas criam roupas novas a partir de tralhas no guarda-roupas. Customizam roupas, objetos de madeira, caixas, sofás, ou o que tiver disponível e o que a criatividade apontar. É o tal Do It Yourself (Faça você mesmo/Bricolage). Você pode não ser um especialista naquilo, mas se vira com o que tem e cria algo novo. O delírio passa por aí! Inventa uma realidade para se virar com o que tem em mãos. 

O filme nos mostra uma invenção muito própria e pessoal por parte do sujeito. Às vezes não nos resta outra alternativa, senão delirar. O delírio é uma tentativa, muitas vezes bem sucedida, de contornar o real. É um filme sobre solidão, afeto, relações sociais. É um filme sobre o amor. 


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