Ele me deu um beijo no rosto e me abraçou, deixando a toalha cair na cama. Eu não sei se ele estava feliz em me ver ou se estava cansado por ter chegado de viagem. Ambos, talvez. Ele foi até o banheiro para pôr alguma roupa. Fechou a porta, mas logo a abriu. Desistiu, e, voltou com a toalha no corpo. Eu estava sentada na cama, com um travesseiro entre as pernas. Havia passado boa parte do dia em seu apartamento, esperando-o chegar de uma viagem. Não sabia exatamente o que eu estava fazendo ali e o que eu queria com aquele relacionamento. Há semanas eu estava interpretando um papel criado por mim mesma para tentar dar conta daquilo que eu não suportava mais sentir. Quantos atores de novela são tão convincentes com suas personagens? Talvez eu obtivesse algum sucesso com a minha personagem criada em meio ao caos.
Ele sentou ao meu lado na cama, perguntou o que eu tinha para estar tão quieta. Eu respondi, quase sussurrando, que estava tudo bem, sem olhar para ele, que em alguns segundos depois se levantou, e, foi até a cozinha. Soltei os cabelos, coloquei meus anéis na mesinha de cabeceira, e, deitei na cama. Algumas vozes internas me incomodavam, não me ouviam quando eu pedia para que parassem de falar. Eu só queria ficar ali, quieta, esperando minha angústia passar. Chorei baixinho por alguns minutos... talvez nem eu conseguisse me ouvir.
Ele voltou ao quarto, e, deitou na cama. Apesar de eu estar deitada de costas para ele, percebi que me olhava, e, eu desejei que não perguntasse novamente se estava tudo bem. Beijou meu ombro, tocou minha cintura, me puxou para ele. Eu não sei se eu queria sexo naquele momento. A certeza que eu tinha era de que as vozes na minha cabeça não iriam embora e eu não podia gritar. Olhei-o nos olhos. Beijei-o. Tirou minha blusa, pôs sua mão por baixo da minha calcinha. Beijou minhas coxas. Ele estava só com uma toalha, não foi difícil deixá-lo sem ela, puxando-a com um dos meus pés. Ele estava em cima de mim, beijando meu pescoço.
E então eu vi. Manchas negras no teto, aumentando de tamanho em segundos. Eu pedi que ele parasse. Olhou para mim... Beijei-o. Ele me abraçou com força. Eu não consegui dizer não a ele. Deixei que me tirasse a roupa. Eu fechava os olhos, na tentativa de não olhar para cima. Eu o senti entrar em mim. Beijou meu seios, apertou minhas coxas. Ele estava excitado o suficiente para não querer parar. Eu não sabia o que fazer.
Pedi para que deitasse. Talvez, meu corpo por cima do seu diminuísse meu pânico. Eu poderia me concentrar no rosto dele, nos meus movimentos. Eu ouvia seus gemidos, ouvia vozes sussurrando no meu ouvido. Tentava não desviar a atenção do som da voz dele. Apoiei minhas mãos em seu peito, olhei-os nos olhos. Pediu para que eu não parasse. Respirei fundo mas... pouco sentia algo. Não importa quantos movimentos eu fizesse, o quanto ele me tocasse, o quão forte, e, profundo me penetrasse, eu não conseguia ir além. Nunca soube fingir um orgasmo. A minha dificuldade em expressar sentimentos meus e interpretar um papel na vida já preenche todos os espaços, não deixando lugar para o que não se sente. Pensei por alguns segundos que talvez minha vida se resumisse a isso: ser amada, somente. Corresponder ao amor do outro era um caminho difícil de percorrer. Enquanto ele gozava, lembrei de uma senhora, que certa vez me disse: "Nem sempre casamos com quem amamos". É... era esse o pensamento que vinha em mente quando ele tinha um orgasmo.
Deitei em seu peito, queria poder chorar. Ele perguntou se estava tudo bem. Eu... nada disse, apenas beijei-o na boca. Após algum tempo, de súbito, levantou, puxou minhas coxas, e, me penetrou por trás. Beijava minhas costas, tocava meu seios, acelerava seus movimentos. Eu pude sentir um pouco de prazer. Deixei escapar alguns gemidos, breves. Senti um pouco de incômodo, mas não era tão importante a ponto de fazê-lo parar. Eu tentei me permitir mais. Não queria que ele sentisse que eu não estava ali. Contudo, por alguns momentos eu me senti um corpo morto, sem expressão alguma. O pouco do prazer que eu senti desapareceu quando vi alguns espinhos na parede. Abaixei o rosto, chorei sem que ele percebesse. Deixei que terminasse, novamente.
Ele me deu um beijo, me fez deitar em seu peito. Beijei suas mãos. Ele perguntou novamente o que estava acontecendo. Olhou-me confuso, percebendo que eu estava assim desde o começo. Perguntou o motivo de eu não responder. Levantei da cama, em direção ao banheiro. Disse que eu era impossível, e, que não queria aquilo para si. Fechei a porta, e, sentei no chão do banheiro, chorando, e perguntei a mim mesma por que as vozes não iam embora, por que precisavam me perturbar tanto. Até quando eu seria atriz do meu próprio filme de terror?

