sexta-feira, 1 de junho de 2018

A relação sexual não existe


Quando alguém inicia a árdua e penosíssima tarefa de ler Lacan, ou quando um sujeito leigo ouve por aí a frase "A relação sexual não existe", os segundos posteriores se resumem a uma confusão mental e repetidas vezes a pergunta: "O que? Como assim?" 

Assim como fazia Lacan com os seus seminários, adoramos dar voltas e voltas em torno do nosso sofrimento, sem ter a mínima ideia de onde ele veio e o que fazer com ele. Sabemos, sem saber, que a linguagem não é capaz de dizer tudo aquilo que mora aqui dentro. Algo sempre escapa das palavras.

Sabemos também que entre um idioma e outro existem várias possibilidades de tradução. Entre "rapport sexuel" e "relação sexual", a vida nos ensina que há significantes que escorregam pelos nossos dedos, e, apesar da tradução bem servir nesse caso, gera dupla interpretação. Mais, ainda... mal entendidos. Rapport, também pode ser traduzido para harmonia, conformidade, concordância, compatibilidade, sintonia. Mas, espera aí... quando se fala da relação entre sujeitos... essa harmonia não existe.

A gente adora acreditar em frases prontas de auto-ajuda para tentar preencher uma falta estrutural e tamponar a nossa inabilidade de lidar com o amor. Ruim com ele, pior sem ele. Ainda que o amor - idealizado - não nos tire o mal-estar.

A gente constantemente acha que o nosso amor é sempre maior que o amor do outro, e que esse outro nunca nos ama o suficiente. A verdade é que jamais saberemos - e se soubéssemos, o incômodo seria outro - e essa impossibilidade de saber nos incomoda a ponto de nos perguntarmos o que diabos estamos fazendo ali. Conviver com outros sujeitos é um eterno "discutir a relação".

A gente acha que damos tudo ao outro e que esse tudo é sempre aquilo que o outro quer. E que aquele mundo que o outro nos entrega em mãos deve ser sempre o que nós queremos.

A gente aprende desde criança que 1 + 1 = 2. Bom seria se os nossos relacionamentos fossem ciências exatas. A relação de um sujeito com o outro é uma infinita discalculia, onde 2 + 2 podem ser 4, ou 6,33, ou 1/2 ou 10,5... ou 0.

Ainda confundimos sexo com sexualidade. Ainda confundimos amor com felicidade. Ainda embaralhamos amor com desejo. Ainda confundimos, e muito, aquilo que sentimos com aquilo que o outro tem para nos oferecer. Ainda que sejamos seres falantes, não falamos a mesma língua. Ainda que acreditemos que podemos dizer tudo, algo sempre escapa à compreensão. Ainda que achemos que nos expressar em palavras é o suficiente, o outro nunca conseguirá compreender completamente o que queremos dizer.

Perceber que a relação sexual não existe, com todas as suas nuances é, frequentemente, uma das maiores descobertas que experienciamos durante uma análise. Dolorosa, sentida em doses homeopáticas de tortura, e, por vezes acompanhada de lágrimas e angústia.

Talvez essa seja uma das frases - entre (todas) tantas - mais mal compreendidas ditas por Lacan. Talvez umas das distorções mais bem vivenciadas por cada sujeito. Talvez um amontoado de palavras que nos dizem aquilo que nos machuca saber. Talvez.

Por fim, precisamos que a relação sexual não exista para que o amor nunca canse de ser dito.


PS: escrito ao som de Kara - Main Theme 
e Little One, trilha sonora de Detroit: Become Human
Links para ouvir aqui e aqui.



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