Coma.
Está nos livros. Está na internet. Você pode perguntar a qualquer médico ou enfermeiro o que o coma significa, em termos fisiológicos. Alteração do estado de consciência, apagão cerebral... Provavelmente você terá alguma explicação intrigante que acalme a sua curiosidade.
E "Como é sair do coma?", muitas pessoas podem se perguntar. Eu receio não ter essa resposta. Para ser mais específica, nunca saí dele.
Eu estou sempre ali... desacordada, distante. Em breves momentos, um estado vegetativo. Uma escala de Glasgow oscilante. Não consigo comer. Não consigo respirar espontaneamente. Não consigo me mexer. Eu estou sempre ali... como se estivesse presa em uma caixa. Não há saída. Não há um grito meu que possa ser ouvido.
Ouço as pessoas ao meu redor. Muitas vozes. Conhecidas, e, outras nem tanto. Entendo o que dizem, o som dos seus risos, o toque, os olhares. E ainda continuo sem reagir a estímulos externos. Exceto, talvez, alguns reflexos automáticos. Mesmo com suspeitas diagnósticas, suporte hemodinâmico e exames de rastreio, o resultado de qualquer investigação clínica é inconclusivo.
Um dos protocolos a ser seguido é jamais deixar alguém em coma sozinho. Mas, acredite, mesmo com tubos, sondas e monitores conectados a mim 24h por dia, ainda estou sozinha em um quarto escuro.
A vida é feita para ser vivida em companhia, eles dizem. Não há solidão maior do que tentar acordar de um coma e dar de cara com a vida fora do seu alcance. Tudo fica escuro, frio, soturno. O coma é um eterno e doloroso "não".
Já são alguns anos em estado de coma. As esperanças são mínimas. Há um aviso pairando sobre a minha cabeça: DNR, estando ao alcance de todos. Afinal, para que reanimar um corpo que nunca teve chance? Momentos chegam à minha frente como medicamentos vasopressores. Tentam me manter viva, mas não por muito tempo.
E, o amor... ele pode te deixar indefeso e vulnerável, mas faz nascer uma razão para continuar vivo quando a vida tenta te destruir. Ouço por aí pessoas perguntando se existe vida após à morte. Talvez haja alguma. Por aqui, se não há amor, não há vida antes dela.
*DNR: "Do not resuscitate". Não reanimar. Não ressuscitar. Decisão confirmada pelo paciente que orienta a equipe médica a não realizar nenhuma ação que permita que o paciente continue vivo.


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