"Amizades acabam, e está tudo bem", dizem.
Está? Pelo ponto de vista de quem?
Amizade é também um outro nome para o amor. Parece-me inapropriado, a princípio, dizer que amores acabam e tudo fica bem. Quem amou? Quem ainda ama mesmo com o fim? O que esse amou representou para as partes envolvidas? Esse amor esteve envolvido em qual contexto? Em qual vida?
Geralmente, amores relacionados a pais e filhos, cônjuges, namorados, familiares... são vistos como mais importantes a serem zelados, mais fortes e mais duradouros, e, quando acabam, muitas vezes, de forma desastrosa e unilateral, deixam marcas. Para alguns deixam traumas, para outros um alívio. O amor acabou, mas um "para sempre" estará constantemente ali. Doendo. Latejando. Morto-vivo. E isso nos molda e dá um contorno dolorido e um sentido torto para nossa existência.
Amores acabam. Ou ao menos, as relações que envolviam esse amor. "Fim" é um nome curto e grosso para o luto. E, sabe... há inúmeras formas de amar. Há quem não saiba amar, há quem não saiba ser amado, e, por consequência ser cuidado. As fantasias se entrelaçam e formam um nó, a confiança manda beijos e há quem não saiba reconhecer ajuda e preocupação, e ao não saber lidar com o amor (só com a dor!) desconfie de tudo e todos, e que tudo não passa de uma conspiração para lhe fazer mal. Afinal, o mal é o seu normal.
Há quem confunda gatilhos, rejeição e julgamentos com ser amado e bagunce todos os seus amores dali pra frente. Tudo vira uma sopa de mal-entendidos que achamos que entendemos muito bem e, portanto, queremos distância... já que o amor, aos nossos olhos míopes, acabou.
Acabou ou eu acabei com o amor? Acabou ou eu confundi com o meu passado obscuro que não conto nem para a minha sombra? Mas... mas... no momento de discernir abuso de amor... bem, continuo um escravo do poder perverso do outro sobre mim, na esperança de ser amado (🤡🤡), e, ao invés de cortar abusos, acabo por cortar o fio que eu tinha amarrado aos amigos que fiz e a uma vida que eu não sabia que era tão possível assim de ser vivida. Oops...
(Quem nos ama e quem nos quer mal... um quebra cabeças - literalmente parte em pedaços as cabeças dos envolvidos - que não sabemos montar. Temos a faca e o queijo nas mãos... e cortamos o nosso dedo ao invés de tirar uma bela fatia de um queijo delicioso... uma loucura!)
A partir daí, é quase sempre um não sei o que fazer/e agora?/não quero lidar com isso. E a bola de neve vira uma avalanche. Quem for atingido por ela que se prepare: não há manual para ensinar a viver a vida. Não há manual que ensine a saber conviver com o outro.
Do outro lado... está... O outro lado. A outra vida. Ou as outras vidas. Que estão ali em pé sem entender muita coisa. Como um noivo que espera a noiva no altar e... ela fugiu. Não quis se casar, não avisou ninguém e nem se despediu.
É... eu já estive no lugar de quem acabou amizades por evidências baseadas em fantasias. Eu sei a dor de reconhecer e não conseguir de volta o amor que deixei escapar. Como uma criança que não soube segurar o balão e ele voou bem alto, desaparecendo no céu.
E... hoje estou no lugar de quem perdeu amigos, por eles mesmos. Um lugar impotente. Não conseguimos fazer de tudo pelo outro. Não conseguimos abraçar o mundo do outro sem um braço para apoio. Talvez eu espere demais das pessoas, achando que em algum momento podem olhar para o óbvio, que não é óbvio para tantos sujeitos. Talvez eu seja boba em esperar do outro o que ele não sabe dar ou não quer dar (e por que ainda sigo esperando?). Talvez, pelo andar da carruagem, eu já tinha noção do que estava para acontecer. O ser humano não me surpreende, sabia? É quase um roteiro já escrito. Previsível. Mas é com o ser humano que atamos laços, criamos relações e socializamos. Um beco sem saída.
Perder um amigo é perder um pedaço de si. E assim seguimos, aos pedaços por um quebra-cabeças que jogaram no chão e peças faltam.
Faltam. Continuarão faltando.
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