segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Feliz ano (nem tão) novo


Em quase todos os finais de ano, a sensação que resta para Olívia é de que nada parece certo. A sensação é de que a vida não está no lugar, de que tudo está como não deveria. E aquele sentimento de decepção, por não ter conseguido dar o seu melhor, por não se sentir suficientemente boa, por não achar que valha alguma coisa, por não sentir que é tão importante como dizem. Palavras podem ser ditas a qualquer momento, mas as lágrimas sempre permanecem a cair, pois, às vezes, não passam de letrinhas miúdas que Olívia tem dificuldade para ler. Arrancar os fantasmas da alma, é quase uma sentença de morte.

Se alguém lhe perguntar o que deseja para o próximo ano, certamente diria que não há o que alcançar. Tudo parece tão distante, tão soltos de suas mãos... Restos não lhe bastam. Migalhas não lhe sustentam. Mas, Olívia rasteja, anda de joelhos, caminha sobre pedras até quando tiver de ser. Tem a certeza quase psicótica de que ano após ano acumula renúncias, traços de fraqueza, vestígios de fracassos, moldes de sorrisos falsos. Não acredita mais em coisas que antes acreditava. Não confia em caminhos escuros, pois eles sempre a fazem tropeçar. Não enxerga as luzes, então a rota é traçada por onde tiver de ser. Olívia guia-se pelas estrelas... distantes, de brilho opaco.

Na contagem regressiva de ano novo, Olívia chora pela continuação do ontem, e, do hoje. Por ter perdido a esperança, por sentir que o caminho permanecerá turbulento, e, que continuará andando descalça. De que quem ela é, não passará de um rascunho de vida. Um rabisco mal feito, e, mal interpretado. Ou nunca lido. De que o que ela tem para dar são apenas cinzas, folhas secas de uma vida vivida pela metade. Ou nem isso.

Olívia não pede por grande coisa. Ela só queria viver um pouquinho. Só um pouquinho...

Ela não sabe ser mais do que é.



domingo, 16 de dezembro de 2012

Sob a luz da lua


Mesmo durante o dia, consigo ver a lua. 
Ela sempre está lá, e, não pode se esquivar dos meus olhos. Dos meus sentidos.

Eu tento laçar a lua, mas, é fato que não tenho um excelente senso de distância. Perdão, se eu não conseguir. Eu só estou tentando alcançar um pequeno príncipe que se esconde por lá. 



sexta-feira, 2 de novembro de 2012

sábado, 1 de setembro de 2012

Entre olhares


Era uma tarde de domingo. Ele, sentado na grama. Ela, deitada com a cabeça em suas pernas.

– Esse parque já foi mais bonito, mais cuidado. - ele diz.

– Também acho. Ou seriam nossos olhos que não veem beleza em tudo, como em nosso primeiro passeio aqui? – ela responde.

“Por que ela não pensa mais no que conquistamos, e menos no que perdemos?” – ele pensa consigo. Ele olha para um casal caminhando no parque.

– Eu sei... – ela diz. Ele a olha, esperando que prossiga, porém, ela não continua.

– Sabes o quê? – abre um sorriso indagador e acaricia os cabelos dela. Ela sorri, ajeitando o rosto na mão dele. – Esqueça. Isso não é importante. – diz em tom quase inaudível.

– Tudo que é teu é importante pra mim, sabes disso.

– Importa-te. – ela responde prontamente, olhando o casal passeando ao lado e, com um olhar triste, retorna rapidamente à mão dele.

– Importar-me? - ele diz. 

– Sim, és importante para mim. – ela responde. “Não sei se sou importante para ti da forma como desejo”, pensa.

– Então, se somos importantes um para o outro, por que estamos assim?

Ela pensou em dizer algo... Mas hesitou. Concentrando-se no carinho que ele fazia em seus cabelos negros, fechou os olhos.

– Eu te amo. – disse ele, não tendo mais palavras para falar sobre tudo o que devia.

Acariciando o rosto dela, ele sentiu a pele úmida. Uma lágrima caía.

– Por que estamos tão distantes? – disse ele, segurando as lágrimas.

– Eu temo não ser boa para ti. Não ser o que tu esperas. Não dar o que mais precisas. Talvez, por isso, eu esteja me afastando. – diz, pausadamente, com os olhos cheios de lágrimas, sem olhar para ele.

Ele, com os olhos marejados, buscando o olhar dela, responde:

– Não precisamos ser bons um para o outro. Precisamos viver, acrescentar. E compartilhar, não só as alegrias, mas tudo. Se estou contigo, é porque te quero.

Ainda em lágrimas, ela afasta o rosto da mão dele, segurando-a. Olha para ele, ainda deitada em seu colo.

– Eu preciso ser boa para ti, sim. Eu não te quero sofrendo. Eu não quero que te sintas como alguém que nada tem. Eu não quero te fazer mal algum. – diz, com a voz embargada. Ele seca uma lágrima dela com um beijo.

– Como assim, não tenho nada? – encosta a sua testa na dela. – Apenas quero que me deixes sentir também tua tristeza.

– Tu já sentes. – diz, olhando profundamente nos olhos dele. – Se não sentisses, não me farias estas perguntas.

– E o que será de nós, então? – pergunta, temendo a resposta. Ela entrelaça suas mãos nas dele, voltando os olhos vermelhos para o casal ao lado. 

– Será esse nosso destino?

– Podemos ser o que quisermos.

– O que achas?

– Não precisas me perguntar. Sabes a resposta.

Chorando, ela levanta, toca o rosto dele com uma das mãos, aproxima-se de sua boca, apoiando-se na coxa dele, apertando-a com a outra mão. Tenta dizer algo, mas os olhos cheios de lágrimas disseram muito mais do que as palavras seriam capazes de dizer. Segurou seus cabelos, beijou-o na testa. Voltou o olhar para os olhos vermelhos dele. Percorria com o olhar cada detalhe do seu rosto. Tentava sussurrar algo, mas só conseguia olhá-lo intensamente, no desespero de parar o tempo. Olhava-o com uma melancolia peculiar, porém, expressando uma alegria que ela só sentia ao estar com ele. Ele pôde ler cada lágrima, cada sentimento que o rosto dela era capaz de dizer, em silêncio. O que os lábios não disseram, o rosto e o olhar foram capazes de deixar explícito.

– Isso foi um "eu te amo"? – ele diz, beijando-a ininterruptamente.


sábado, 18 de agosto de 2012

Habitualmente


O dia está apenas começando. O sol, tímido, surge por entre as janelas do quarto. Com o sono leve, ela abre os olhos sem dificuldade. Permanece um tempo olhando o relógio no criado-mudo ao lado. "Ainda posso dormir mais um pouco", pensa. Vira-se para o outro lado, parando por um estante, como se algo novo e inusitado estivesse à sua frente. Permanece imóvel. Os únicos movimentos são os dos seus olhos. Olha-o.

Ele abre os olhos abruptamente, acordando de seu sono pesado. Olha para o relógio: é chegada a hora de ir trabalhar. Mas o aconchego naqueles braços o prendia com uma força desigual. Pensa em tudo aquilo que está vivendo, cada momento, cada beijo, cada palavra com ela. Pensa em levantar da cama, mesmo com o sono ainda presente, mas sente um aperto nos ombros. Ela o impede de levantar, deitada em suas costas. "Não", ela diz. "Eu preciso sair", responde com o tom de voz sonolento. Ela mais uma vez o segura. "Fica... Só mais um pouco". "Eu preciso ir, está na hora", ele diz. "Só hoje, fica", ela o pede com uma voz melíflua. Beija o ombro direito, acaricia os cabelos, ajeita-se por trás dele, como se quisesse prendê-lo em si.

Ele pronuncia o nome dela, em tom de reprovação. Não demora muito para que ela o solte, descontente. "Sabes que eu preciso ir, e que voltarei ainda hoje. Não vais me perder, oras!", disse a ela. Ele levanta rapidamente, ainda olhando-a. Ela permanece em silêncio. "O que tens?", ele pergunta. Ela nada diz. Senta-se na cama, flexiona os joelhos, apoiando o queixo sobre eles, envolvendo as pernas com os braços. Olha-o detalhadamente enquanto ele troca de roupa. "O que tens?", ele repete, pausadamente. Ela, ainda o observando, abre um imenso sorriso. Uma lágrima corre dos olhos. "Eu vou continuar falando sozinho?", reclama, enquanto tenta arrumar os cabelos.

Ela levanta da cama, vai em direção a ele, beija-o no ombro direito, fazendo com que ele se vire para ela. "Deixa que eu faço isso", sussurra, enquanto penteia os cabelos dele. "Pronto. Assim está bom", finaliza. Ele sorri, sem jeito. Termina de se arrumar. "Eu te amo", ele a diz, beijando-a rapidamente e indo em direção à porta. Ela o puxa pelas mãos, procurando por um abraço. Olha pra ele, tocando seu rosto. "Volta bem?", pergunta. "Claro, eu volto para ti!", disse a ela, abraçando-a e beijando sua testa. "Por que estás assim? Pareces preocupada", ele pergunta. "Eu sempre me preocupo contigo. Mas, não é isso.", responde. "Então diz, o que é, por favor.", ele a suplica, ainda que com pressa. "Tens muita coisa para fazer hoje. Não te prendo mais. Vai, mas volta", responde, dando-lhe um beijo de leve nos lábios. "Fica bem?", ele a pergunta, se aproximando da porta. Ela balança o rosto, positivamente. Desvia o olhar para as mãos dele, segurando-as fortemente.

Ele dá um passo para trás, em direção à porta. Ela ainda segura suas mãos. Olha para ele, com um leve sorriso. "Vais ficar bem? Eu volto para ti, o mais rápido", ele a diz, admirando aquele belo rosto sorridente. "Fico. Eu te espero voltar. Hoje não trabalho". "Então até mais tarde! E não esqueças: eu te amo!", ele a diz, apressando seus passos. Ele fecha a porta.

Ela continua em pé, olhando para o chão. Pensa na pergunta dele: "O que tens?", respondendo-a verbalmente, em tom calmo, porém levemente melancólico: "Tu, dentro de mim".


"Eu te amo!", ela disse. Mas ele não sabia ouvir a alma.

domingo, 12 de agosto de 2012

Alguém como ela



Era uma tarde ensolarada. Daquelas em que o sol parece querer visitar a Terra para ver sua beleza mais de perto. Sentada em uma das mesas de uma conhecida rede de lanchonete, está Catherine, tomando um cappuccino.

Sem ter pensamentos fixos, aprecia a orla. Algum tempo depois, lá longe, avista um casal. Poderia ser qualquer um, se não fosse quem ela bem conhecesse. Olha novamente, na dúvida e, finalmente tem a certeza. À beira do rio, o passado de Catherine andava de mãos dadas com seu não-presente.

Observa aquele casal, faz uma resenha crítica de seus desencontros, analisa cada passo daqueles dois que poderiam ser, ainda, Catherine e ele.

Olha para a mesa. Sorri, sem alegria. Levanta a cabeça, olhando para um dos lados, na tentativa de fugir do que viu. Fechando os olhos, uma música tocava em sua mente. Uma música longa, alegre e, ao mesmo tempo, melancólica, que contava, em cada verso, todos os dias de Catherine com ele. Cada sim, cada não, cada palavra, cada lua e sol, cada dia sem ele.

Ajeitava-se na cadeira, sem saber se saía ou se ali ficava. Apertava as mãos, como se quisesse esmagar a maneira como se sentia. Respirava profundamente, na tentativa de por para dentro tudo o que transbordava.

"Quem é ela para merecer teu amor? Quem é ela para que a dediques os olhares que eram só meus?", pensava, enquanto apertava as mãos com mais força. Não desviava mais o olhar. Era algo que não conseguia ter controle. "Eu sei...", pensava. "Tu estás melhor sem mim".

Levantou-se, armada com toda a força de seu passado, do amor que ainda nutria dentro de si. Partiu, com passos lentos e firmes, em direção aquele casal. Os punhos cerrados, uma mescla de ira e afeto. Ao aproximar-se e receber olhares de atenção do casal, toda essa energia foi liberada em uma lágrima, um sorriso triste e uma frase à nova namorada: "Cuida bem dele".

terça-feira, 15 de maio de 2012

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Somewhere in time


"The rain insisted on sacrificing us, but we didn´t walk away from her. You lifted your hands to the sky, desiring to touch it, to move away the gray clouds, so you could shine among them. Slowly, I raised my hands up in the same direction. I had never been so close to the sky before. Finally, I could touch it with my fingertips. I did it. Strongly, I held your hand in mine and danced among the bright stars."

- Josh Lampard
Personagem criado para o conto "Mea Vita"





quarta-feira, 7 de março de 2012

Tic Tac


A clock. My head. They put something in my head. There´s something here. 
They can change the hours. A big clock on the wall. 
I can´t stop thinking. They did something with me. They did something with my head. 
I don´t know what they did, but I´m not enjoying it. 
My head. They did something with my head. 
They want me thinking about it. Again and again.
I can´t stop it. I can´t stop it.