segunda-feira, 2 de julho de 2018

Sinto muito


Agnes abriu a porta do seu quarto e em seguida jogou na cama sua bolsa e o livro que havia acabado de comprar. Dentro do livro, havia uma prescrição de medicamentos, que sua psiquiatra lhe deu, horas antes. Era a terceira vez que trocava de psiquiatra, e a quinta vez que buscava um psicólogo. Achava perda de tempo ir a mais consultas e novamente ouvir que tudo aquilo que sentia iria passar. "Vamos trabalhar para isso", ouviu. Sentou na cama e começou a chorar, enquanto tirava os sapatos.

Havia recebido 3 diagnósticos. Todos transtornos mentais. Já havia procurado no Dr. Google quais transtornos eram esses, e apesar de experienciar as características mal-ditas de cada um, eles não diziam nada sobre si. Mesmo tomando religiosamente os remédios, e, de certa forma, melhorado do quadro clínico, ainda se sentia triste, sozinha, incompreendida. A tão querida melhora acabava por soltar suas mãos. Ao mesmo tempo que queria, desesperadamente, eliminar todos aqueles sintomas que causavam tanto mal estar, achava confuso e desconexo chegar a uma consulta e ouvir formas de aliviar os sintomas. Se procurava a cura, por que o vazio ao encontrá-la? Por que se autossabotava*?

Abriu a gaveta e tirou um papel branco, dobrado ao meio. Talvez, naquela noite, pudesse dar continuidade ao seu plano. Talvez, com o seu suicídio, alguém conseguisse a façanha de ouvir algo. Mesmo que não estivesse mais ali, acreditava que sua carta de despedida poderia ser o momento em que mais teria sido ouvida. Não queria calar o sintoma, queria dizer algo sobre si além do que os sintomas mostravam. Mais ainda, eles eram seus únicos melhores amigos.

Agarrava-se tanto aos seus sintomas quando não conseguia falar... Tinha sintomas somente por existir. Um dia, ouviu de um senhor que também aguardava atendimento na sala de espera da psiquiatra: "Sintomas foram feitos para sentir". E sentia tanto...



P.S.: (Pergunta retórica) Por que será que suicidas (ou os que tentam) sempre escrevem em suas cartas um "Sinto muito"? 

*Nota da autora: palavrinha mequetrefe. Em psicanálise, seria mais interessante e amplo dizer "compulsão à repetição". 

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