quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Não é não


Com quantos nãos se escreve um livro de páginas vazias?
Quantos nãos são necessários para se fazer ausente?
Quantos nãos são suficientes para te deixar perdido?
Quantos nãos são capazes de desfazer os nós que unem os dias que te restam?
Quantos nãos são necessários parar amarrar lágrimas maçantes aos céus nublados?

Com quantos nãos se deixa de existir?


segunda-feira, 8 de abril de 2019

DNR*


Coma.

Está nos livros. Está na internet. Você pode perguntar a qualquer médico ou enfermeiro o que o coma significa, em termos fisiológicos. Alteração do estado de consciência, apagão cerebral... Provavelmente você terá alguma explicação intrigante que acalme a sua curiosidade. 

E "Como é sair do coma?", muitas pessoas podem se perguntar. Eu receio não ter essa resposta. Para ser mais específica, nunca saí dele. 

Eu estou sempre ali... desacordada, distante. Em breves momentos, um estado vegetativo. Uma escala de Glasgow oscilante. Não consigo comer. Não consigo respirar espontaneamente. Não consigo me mexer. Eu estou sempre ali... como se estivesse presa em uma caixa. Não há saída. Não há um grito meu que possa ser ouvido. 

Ouço as pessoas ao meu redor. Muitas vozes. Conhecidas, e, outras nem tanto. Entendo o que dizem, o som dos seus risos, o toque, os olhares. E ainda continuo sem reagir a estímulos externos. Exceto, talvez, alguns reflexos automáticos. Mesmo com suspeitas diagnósticas, suporte hemodinâmico e exames de rastreio, o resultado de qualquer investigação clínica é inconclusivo.

Um dos protocolos a ser seguido é jamais deixar alguém em coma sozinho. Mas, acredite, mesmo com tubos, sondas e monitores conectados a mim 24h por dia, ainda estou sozinha em um quarto escuro. 

A vida é feita para ser vivida em companhia, eles dizem. Não há solidão maior do que tentar acordar de um coma e dar de cara com a vida fora do seu alcance. Tudo fica escuro, frio, soturno. O coma é um eterno e doloroso "não".

Já são alguns anos em estado de coma. As esperanças são mínimas. Há um aviso pairando sobre a minha cabeça: DNR, estando ao alcance de todos. Afinal, para que reanimar um corpo que nunca teve chance? Momentos chegam à minha frente como medicamentos vasopressores. Tentam me manter viva, mas não por muito tempo. 


E, o amor... ele pode te deixar indefeso e vulnerável, mas faz nascer uma razão para continuar vivo quando a vida tenta te destruir. Ouço por aí pessoas perguntando se existe vida após à morte. Talvez haja alguma. Por aqui, se não há amor, não há vida antes dela. 


*DNR: "Do not resuscitate". Não reanimar. Não ressuscitar. Decisão confirmada pelo paciente que orienta a equipe médica a não realizar nenhuma ação que permita que o paciente continue vivo. 

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Por que eu odeio a psicanálise?


Odeio. Tenho raiva. Implicância.

Desde bem pequena, sempre torci o nariz quando ouvia um psicanalista falar sobre algum tema que me interessava. Coisa mais sem graça isso de ouvir palavras complexas e que ecoavam na minha mente sem parar, e eu nem sabia bem o por quê. 

Ainda fui inventar de dar crédito para a psicanálise na minha adolescência, quando fui a um analista. Pensei com meus botões: "Como as pessoas chamam isso de terapia?". Isso me faz lembrar de quando eu travava batalhas intermináveis com uma tia, psicanalista (veja só!), que adorava falar de Freud e Lacan. Provavelmente, se eu tivesse um perfil em alguma rede social naquela época (Orkut, tudo bom?), certamente escreveria letrinhas raivosas para quem quisesse ver. Ou, como uma boa histérica, xingaria muito no twitter. 

Acontece que eu precisava falar das minhas dores para alguém. Descartei a psicanálise prontamente ao aceitar que precisava de ajuda. Qualquer outra forma de terapia, menos essa senhora. Com o passar dos dias, andei falando da minha vida por aí, em consultórios de psicoterapeutas alheios. Fui aqui e ali, esperando que alguém combatesse o meu problema. Ou pelo menos aliviasse meu sofrimento. Isso até aconteceu, algumas vezes, mas não era como eu imaginava que seria. Aquilo que eu tinha, dilacerante por dentro, voltava com força. Algo de errado não estava certo

Cedi, infelizmente, à psicanálise. Afinal, quem está perdido, qualquer caminho serve. No decorrer das sessões, comecei a me perguntar "Onde foi que eu me meti?". Eu sabia que não daria certo. Embora, como bem disse o analista, aquilo que é certo não quer dizer que alguém deva escolher seguir. Na época, não entendi muito bem o que ele quis me dizer.

Em determinado momento decidi, definitivamente, parar com as análises. Odeio o modo como o meu silêncio se instala durante uma sessão, me fazendo refletir por que permaneço tão calada, por que me faltam palavras e sobram tantas lágrimas... E mais, ainda... O que eu quero dizer e não consigo? Por que não sou capaz de verbalizar o que sinto? Quanto mais permaneço em silêncio, mais olho para o problema que é a minha vida, ou o que ela se tornou... Seja lá como eu entenda isso. 

Odeio quando a psicanálise me mostra que sou eu a responsável pela minha vida. É tão mais fácil culpar pai, mãe (a culpa é sempre dela, coitada!), ex-namorados, amiga, chefe, faculdade, o vizinho. Queria continuar culpando as pessoas... Afinal, muitas delas me fazem sofrer. Acho justo

Odeio quando a psicanálise separa claramente a culpa da responsabilidade. Olha que chato... Eu estava certa de que morreria sem saber que não são palavrinhas sinônimas. São extremamente opostas. 

Odeio quando a psicanálise me coloca em outro caminho que não seja da culpa. Às vezes tudo o que a gente quer é que o outro confirme e concorde com nosso sofrimento. E aí a gente continua se culpando e continua gozando com a nossa posição de donzela indefesa. Uma loucura perceber isso. 

Odeio quando a psicanálise me faz olhar para o meu interior de forma tão sem filtro e sem desvios que é impossível deixar de fazer algo com aquilo que está na minha frente. Ainda que eu permaneça sofrendo e aceite continuar do mesmo jeito de sempre, não posso mais culpar o mundo pela maneira como gosto de gozar. Odeio como a psicanálise destrói os meus castelinhos de areia. Deixa aí, poxa! É muito mais simples ver a vida com lentes distorcidas. Sábio ditado aquele que diz que a ignorância é uma benção. Ôh...

Odeio quando a psicanálise não me diz o que eu devo fazer. Porque, convenhamos, tem de ter algo. Não me sugestiona, não me aconselha, não me mostra o caminho. Sou eu que tenho de tomar decisões, não a partir do que um Outro expõe ou diz  aquilo que é o melhor, mas a partir de mim. É por isso que nem sempre perseguiremos o caminho do sucesso pessoal ou da tal felicidade. O certo pode ser uma enganação. A mentira pode ser nossa maior verdade. Que droga, hein? 

Odeio quando a psicanálise me mostra que nunca poderei fazer escolhas baseadas somente no que eu quero, e, que o Outro sempre terá uma grande participação na minha vida, afinal, eu existo como sujeito a partir do Outro. 

Odeio quando a psicanálise escancara para mim que nem sempre um problema deixará de ser um problema, mas que posso ser criativa com a minha própria existência. Mesmo com as perdas e mal-estares, que a psicanálise me desenha que continuarão a existir. 

Odeio tanto a psicanálise que aceitei para mim o tal "formar-se psicanalista" como desejo. A psicanálise se consumou como sintoma. Confirmei que, enfim, ela é um dos amores da minha vida.



quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Agridoce


Olhando para algum tempo atrás, não tão distante das horas que hoje correm devagar, se eu publicasse uma foto em alguma rede social, certamente eu a usaria para ganhar mais visualizações e curtidas. As pessoas gostam de determinadas fotos, de imagens específicas que afaguem os seus olhos, momentos que chamem a atenção de quem ali está. Nem que para isso você precise arrumar algo para aparecer naquela imagem do jeito que você quer e para como quer que as pessoas se sintam.

Não posso me esquecer, é claro, das legendas ou títulos daquelas imagens. Algo que toque as pessoas, algo sobre a qual elas estejam passando, algo sobre o que elas gostariam de ler. Existem inúmeras técnicas para aprender como fazer textos chamativos e imagens que encantem as pessoas. Não me surpreendo com o sucesso que fazem os programas sensacionalistas e textos de auto ajuda escritos por aí. Brincar com o desejo e com o gozo nunca foi tão preciso.

Por entre cliques, imagens, palavras de empoderamento e coraçõezinhos, resta o invisível aos olhares eufóricos pela próxima polêmica ou meme. Resta o mal-dito. Resta aquilo que não se diz. Gritado, talvez, mas quem ouve? As pessoas acreditam saber escutar, quando não sabem que fingem em ouvir o outro.

Hoje, a chuva lamenta lá fora... Meu nome possivelmente pode ser mudado para silêncio. O drama bateu à porta. Mentiras me mandaram cartas com meias verdades. Tenho um relacionamento sério com a dor. Inimiga de mim mesma, sou vizinha da angústia, e, não satisfeita, fui fazer amizade com a chatice.

O pior.