A vida é uma só. Eles dizem.
Enquanto aproveitam momentos para desfrutar.
A minha está passando diante dos meus olhos. Não consigo alcançá-la! Ela vem até mim como um cachorrinho vem até seu dono. E então o cachorro percebe que seu dono é outra pessoa...
A cada passar dos dias, eu vou deixando de existir. No olhar, no toque, em um suspiro, em uma lágrima, nas palavras que eu gostaria de dizer, nos gestos que eu gostaria de fazer, naquilo que eu gostaria de ser.
Sempre um depois. Sempre um talvez que nunca chega. Sempre algum não me encontra por entre as esquinas da vida. Já espero por ele no cantinho de cada rua. Ele sempre aparece de um jeito ou de outro, acenando repetidamente. Abaixo a cabeça, suspiro, e, aceito que assim será.
De novo.
Nunca tive a chance de dizer, sentir, viver como eu gostaria. Grito, choro como uma criança, tropeço, peço "por favor, não me deixa aqui", sussurro alguma oração.
Absolutamente nada do que eu faça muda a estrada em que eu caminho.
Já fingi inúmeras vezes que tudo corria bem. Que eu conseguiria seguir em frente com todos os percalços. Que a vida segue seu caminho e eu de mãos dadas com ela como se nada estivesse acontecendo. Já sorri sem sentir vontade alguma de. Já chorei querendo apagar os sorrisos que eu mesma dei. Nada era verdadeiro.
Eu não sou. Não há verdade possível que possa me encontrar. Restaram omissões, mentiras e sincericídios. Sou uma falsa imagem de tranquilidade e segurança. Não passo de um corpo sujo jogado na lama.
Minha vida se transformou em uma piada de mau gosto. De sabor amargo. De gosto de sangue e cinzas.
Eu não existo. Não posso existir. Não é permitido que eu exista. Sou invisível.
Como eu poderia existir?
No toque, no olhar, num abraço, num beijo de bom dia, nas palavras que não posso dizer, nas letras que não me permitem deixar sair da minha boca, no presente baratinho da 25 dado com carinho, no "ei, espera por mim. Estou chegando", no chocolate quente num dia de TPM, no silêncio daqueles que escolheste compartilhar a gangorra da vida.
Um pouco de amor seria suficiente. Não peço muito. Mas, nenhuma carta está endereçada a mim. Nenhum olhar. Nenhum abraço. Nenhum "E se...?".
Eu só queria que alguém não desistisse de mim. Não importa o que acontecesse...
Não vivo sozinha. Não vivo. Ninguém vive.
Há algum lugar para mim nesse mundo?
Com (a falta de) amor,
S.
(Enxuga os olhos, criatura, lágrimas não pagam boletos. Sarah, levanta e vai servir o café. Estão esperando...)