quarta-feira, 3 de março de 2021

A drag queen

 


Ontem, a maquiagem foi feita para esconder a dor.
Hoje, a maquiagem está sendo feita para apagar a angústia estampada nos olhos.
Amanhã, a maquiagem será feita para matar a vergonha que é viver aqui dentro. 

Quem nunca se escondeu atrás de um batom vermelho para deixar de dizer o que sente?
Quem nunca se escondeu em sombras e delineadores coloridos para abafar as lágrimas?
Quem nunca se escondeu em camadas de base e pó para omitir a angústia de uma rejeição?
Quem nunca se escondeu atrás de um blush para disfarçar o desamparo e a desesperança?
Quem nunca se viu belamente modificado para ser aceito?

Quem somos quando removemos o personagem que construímos? 
Quem somos montados no personagem que gostaríamos de ser? 
Quem somos apesar do personagem que suportamos? 

Às vezes, é tarefa impossível separar o personagem daquele por trás da maquiagem. 

Às vezes, somos muito além do que as cores que estão nos nossos rostos representam ou permitem ser. 

A arte sabe fazer da vida um caminho possível por entre os gritos espinhosamente silenciosos (ou silenciados?) 

O que você vê no espelho quando faz do seu rosto a tela da vida? (E o que não vê?)


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