domingo, 7 de maio de 2023

Controle de fronteira durante a chuva (o impostor)

 


"Você sabe que tem algo a mais aí, e isso é com você, não comigo. Não joga para mim", disse Sarah, antes de se levantar após encerrar a discussão e ter ouvido, aos gritos, um "cala a boca"

Uma tempestade estava chegando. Tanto lá fora quanto dentro de casa. Talvez, a vigésima só no início do ano. Cada vez mais constante ouvia frases como "você não me ama mais", "eu deixei de ser importante para você", "você não me entende" e sempre pensava em responder algo, e desistia todas vezes. Evitava a todo custo brigas que durariam horas ou dias. 

Estava exausta de sentir saudade, de pedir para "pelo amor de Deus, para com essa merda e resolve o que precisa resolver", de tentar conversar sem gerar brigas dramáticas e desnecessárias. De tentar responsabilizar a outra parte pelo relacionamento, sem que isso virasse um jogo de xadrez e tudo sempre voltasse contra ela. Estava exausta de pisar em ovos. De ter a sensação de que andava por um campo minado, em que precisava tomar cuidado com qual passo dava em direção a sabe-se lá onde. 

Tudo isso em meio a um "não me deixe". Como não deixar se a outra pessoa fazia de tudo para sabotar o relacionamento? Como não deixar se o outro lado preferia terminar tudo antes de se sentir rejeitado? Tudo virava de ponta cabeça a cada frase distorcida, paranoias e jogo de palavras. 

Tentou sentar para conversar sobre o que estava acontecendo e explicar o que a outra pessoa fazia sem perceber, tornando o diálogo impossível. Ouvia sempre que ela exigia demais, pressionava demais e a outra parte já estava farta do trabalho para ter que lidar com mais problemas pessoais. Certa vez, ouviu da outra pessoa em questão perguntar se o trabalho as afastaria. Pensou em dizer que não. Não era o trabalho o problema. Não era o trabalho que as afastaria. Era ela mesma. Desistiu. Parou de falar. Parou de dizer que sente saudade, parou de dizer que amava aquela pessoa. 

E então começaram os ataques de pânico. No início, esporádicos. Por fim, foram ficando cada vez mais frequentes. Diários. Mas não podia falar nada. Ou ouviria pela milésima vez "Está vendo? Sou uma má pessoa. Você não me merece. Não fique comigo. Procure alguém melhor". Ela ria cada vez que ouvia essas frases. Ensaiava um discurso para novamente explicar o que acontecia, mas o outro lado jamais iria admitir, e, desistia. 

Sofria sozinha. Já estava sozinha, de qualquer forma. O outro lado só pensava em trabalho. Mais trabalho. Fugia para o trabalho para não ter de encarar o resto da própria vida. E quando encarava tudo o que precisava resolver, dizia sempre que queria morrer. E que ela jamais entenderia. 

O outro lado mal sabia que ela sabia. Das mentiras como sintoma. Das fugas. Das 300 justificativas não justificáveis para não caminharem juntos. Mal sabia que ela sabia que tudo era uma cortina de fumaça para abafar o que a outra parte nunca quis contar. Ela sabia. 

Tudo se resumiu a ouvir um "Você está diferente comigo". Sim, ela estava diferente. Deixou de reclamar que a outra pessoa não dava valor ao que tinha. Não acreditava mais em palavras que não encontravam ações reais. Deixou de acreditar no tal "romântico incorrigível" que a outra parte alegava ser. Tão romântico que não mexia um dedo para estar com Sarah. Como são as ilusões que cada um acredita para si... "Me dê 1 ano". Ela deu 5 anos. Mais do que 5, na verdade.

Na verdade, era cômodo para o outro lado manter o status quo na relação. Algo do tipo "não me lembre do que preciso fazer. Vamos seguindo e estando tudo bem. Não me lembre das minhas mentiras. Só fique comigo. Mas não exija nada de mim. Enquanto eu sempre direi que quero estar contigo, embora jamais o faça. Mas fique comigo. Vamos seguindo. Não me pressione. Um dia, quem sabe, farei o que você gostaria". 

Ali, ela entendeu. Ali ela entendeu que jamais as coisas mudariam se o outro lado não dissesse a verdade, sem antes se proteger com crises de raiva, brigas e infinitos testes. Ela era sempre testada para saber se ainda queria, se ainda amava. "Você ainda me ama?", "Ainda pensa em ficar comigo para sempre?", "Você ainda me tem nos seus planos?", "Vamos viajar juntos. Quando você programou as suas férias?". Qualquer boa reposta para apaziguar a angústia do outro lado, sem que isso signifique, que de fato, dariam um passo a frente para permanecerem juntos. Afinal, em todas as hipóteses possíveis (na mente da outra parte do relacionamento), a pessoa seria rejeitada e deixada por ela. 

Sarah ria quando ouvia que rejeitaria facilmente o outro lado. Mal sabia que ela já sabia. E que ainda estava ali, tentando. Ria das atitudes desesperadas do outro lado feitas por motivos... inúteis. Ela ainda estava ali. Pensou em dizer que a outra parte era cega demais e não via o que estava bem diante dos seus olhos. Mas seria em vão. A outra pessoa só acreditava 100% nas armadilhas da sua própria mente. Uma pena. 

Ali ela entendeu que amor não segura relacionamento. Entendeu que amor nunca é, sozinho, suficiente para sustentar uma relação. Ela já sabia disso, mas relutava em entender. E chorava. Soluçava. Sentia uma raiva gigante ao ver a outra pessoa tomando atitudes tiradas do cu para manter um distância sem sentido. 

Os ataques de pânico era uma forma dela gritar "Para com isso, pelo amor de Deus". Mas jamais seria ouvida. Não diria a ninguém. Não falava nada. Só ouviria o mesmo discurso de sempre. Ria de ódio ao ouvir que o melhor era cada um seguir seu caminho. Era uma risada melancólica. Digna de O Coringa. Ria da atitude impensada, impulsiva e cheia de insegurança da outra parte em querer terminar tudo. Não resolveria absolutamente nada. Só isentaria o outro lado da responsabilidade de ficar. Cômodo, no mínimo. É mais fácil fugir do que ficar. Sempre é. 

Parou de dizer. Parou de ser. E isso teve consequências. Mas, silêncio. Ninguém podia saber. Ou seria mais uma tempestade em alto mar. Lembrou de algo que ouvira muitos anos atrás. "Se eu te contasse a verdade, você jamais iria querer me ver de novo". Dizia mentalmente, "Eu já sei, idiota. Não subestime minha inteligência". 

Durante a tempestade de verão, ela sentou para tomar um chá. Dizem que chá de camomila acalma. Risos. Talvez fosse necessária uma floresta inteira de flores de camomila para acalmar a angústia.  

Às vezes é melhor sair da realidade quando a dor é excruciante. Então, vamos lá, pensou ela. 


    

P.S.: uma parte desse texto foi escrita 
no dia 31 de dezembro de 2023. 
Outra parte foi finalizada hoje. 


"Eu disse: Lembre-se desse momento
No fundo da minha mente
Quando estávamos lá com nossas mãos tremendo
A multidão se levantava e ia à loucura
Nós éramos os reis e rainhas
E eles leram os nossos nomes
Na noite em que você dançou 
como se soubesse que nossas vidas 
nunca mais seriam as mesmas
(...) 
Vida longa às barreiras que atravessamos
Todas as luzes do reino brilhavam só para mim e você
Eu estava gritando: Vida longa a toda a magia que fizemos
E tragam todos os impostores
Um dia, seremos lembrados
(...)
 Isso é um absurdo
Porque, por um momento, um bando de ladrões
Com jeans rasgados conseguiram dominar o mundo
(...)
Vida longa a todas as montanhas que movemos
Eu vivi o melhor momento da minha vida
 lutando contra dragões com você
Eu estava gritando: Vida longa àquele olhar no seu rosto
(...)
Continue girando
Confetes caem no chão
Que essas memórias nos confortem na queda
Você tem um momento?
Me prometa isto
Que você ficará ao meu lado para sempre
Mas se, Deus me livre, o destino tiver que interferir
E forçar a nossa despedida
Se você tiver filhos algum dia
Quando eles apontarem para as fotos
Por favor, diga a eles o meu nome
- Long live, Taylor Swift
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