sexta-feira, 20 de julho de 2018

O que faz um psicanalista?


Se alguém me perguntasse, nesse exato momento, o que faz um psicanalista, possivelmente eu ficaria alguns segundos sem responder, e, talvez até dissesse, com um ar frustrado: "Não sei te explicar".


Seria quase cômico. Mas não seria trágico.

Não é como responder o que faz um médico ou nutricionista. Enquanto aquele faz diagnósticos nosológicos, cirurgias e prescreve medicações, esse prescreve dietas e/ou cuida da alimentação de indivíduos sadios ou enfermos.

Talvez seria mais fácil responder o que um psicanalista não faz. Ou não é. Certamente, um psicanalista não faz milagres. Não sai dando conselhos de como viver a vida. Não vomita manuais de felicidade. Não é um livro de auto-ajuda ambulante. Não é médico (mas pode ser), não é psicólogo (mas pode ser), não é advogado "do diabo" (mas pode ser). Também não é bruxo, muito menos sabe ler o futuro de uma pessoa.

Há quem diga que um psicanalista "sabe tudo de alguém" somente com o olhar... Acho que um psicanalista seria muito útil, e menos custoso, em substituição a aparelhos de raio x, ultrassonografia e ressonância magnética. Supostamente, basta um olhar para o psicanalista perceber tudo o que acontece com um sujeito e descobrir tudo o que se passa em sua mente. Assustador, eu diria. Entendo, talvez, o motivo de muitas pessoas sentirem receio de bater um papo por aí com um psicanalista, fora do consultório. Há quem se afaste por acreditar que um psicanalista analisa toda e qualquer pessoa que cruza seu caminho.


Há quem pense que deitar no divã é algo semelhante a fazer sexo com alguém. Há quem diga que um psicanalista é sempre alguém extremamente culto, um ser místico que sabe de tudo, usa roupas caríssimas, fala impecavelmente bem e não erra jamais. Há quem diga que um psicanalista não tem problemas pessoais ou conflitos internos. Há quem diga que psicanalistas não podem falar palavrões. Desconheço quaisquer características divinas.


São tantos preceitos, idealizações e dúvidas. Ainda assim, responder o que faz um psicanalista não anda de mãos dadas com um "decifra-me ou te devoro".

Um psicanalista faz o analisante ou paciente descobrir um saber que ele mesmo não sabia que já o sabia. Um saber inconsciente. Quase um Easter Egg*. Tão estranho, mas ao mesmo tempo, tão próprio do sujeito. Um psicanalista implica o sujeito, com sua vida mal-dita, fazer melhor com o seu sintoma. Bem-ditas palavras sendo escritas em sua própria história, para, quem sabe, um Plot Twist**.

Um analista possibilita a alguém fazer as pazes com o seu inconsciente e deixar a vida mais interessante. E isso não tem a ver com o certo e o errado. Psicanalistas não são juízes, muito menos saem por aí avaliando pessoas. Menos ainda, ditando verdades. Em uma análise, nossos sentidos vão perdendo sentido, caindo em pedaços pelo chão, onde cada um vai construindo seu quebra-cabeças particular, sem exatamente encaixar perfeitamente todas as pecinhas. E por não haver encaixe sem defeitos, vamos sabendo fazer melhor apesar de. Apesar da falta. Apesar dos furos, tão nossos. Apesar das perdas. Sem querer sair tapando buracos, desesperadamente, na tentativa de alcançar a completude, o não-sofrimento.

Ainda que eu tente explicar, e mesmo sabendo que a linguagem não dá conta de dizer tudo, um psicanalista faz um sujeito, de um jeito ou de outro, falar de amor.

Um mistério.




*Easter Egg: Significa "Ovo de páscoa". Tradicionalmente, na páscoa, os pais escondem os ovinhos de chocolate das crianças. A graça está em ir procurá-los. No mundo dos jogos, por exemplo, são "segredinhos" e "informações ocultas" que encontramos ao jogar um jogo (!) ou fuçar um programa. 
**Plot twist: Reviravolta ou fato inesperado em qualquer obra narrativa, como filmes, jogos, séries e livros. 


sábado, 7 de julho de 2018

O problema do autoconhecimento


Sempre tive uma implicânciazinha com a palavra autoconhecimento. Sempre achei que havia um furo no discurso de conhecer a si mesmo. Mesmo já tendo seguido por esse caminho e repetido que "autoconhecimento é a chave", das vezes que eu parava para pensar naquilo que eu mesma dizia, eu ficava tentando encontrar uma resposta para aquilo que eu não acreditava tanto assim. 

Era uma vez a análise...

Convenhamos, ninguém quer se autoconhecer. Quem procura terapia (ou algo ilusoriamente perto disso) não quer conhecer a si mesmo. A pessoa procura alguma ajuda porque quer ser feliz, quer mudar de vida, quer emagrecer, quer sair de um relacionamento, quer mudar de profissão, quer isso ou aquilo... mas não quer saber de si. 

O discurso do autoconhecimento está bastante ligado a "fazer as escolhas certas" para "chegar lá", e isso envolve trabalhar seus sonhos, aspirações, talentos, potencial e dificuldades que te fazem "encalhar" na vida. A grande, e infeliz, questão é que esse discurso é um tiro no pé. Ninguém sabe realmente o que quer. Mal sabem que a insatisfação é um bem comum. E que nem todo mundo nasceu para ser feliz, por mais absurdo que isso pareça. Nem todo mundo que busca ser feliz, quer realmente a felicidade e o tal autoconhecimento.

E, convenhamos, ainda, que jamais nos conheceremos tão bem como pregam por aí. Conhecer nosso próprio Eu é se dar conta de que ele é uma construção imaginária que vamos tecendo ao longo da vida, e como toda imagem, tem algo de corrompido, falso. Não é algo muito bonito de se perceber, e, nem todo mundo está disposto a olhar o lado feio de cada um. Sem falar que tendemos a rejeitar aquilo que é esquisito e inadmissível em nós. 

Que vida sem graça essa de saber tudo de si (provavelmente achar que sabe tudo do outro). Com o discurso de que um dia seremos a nossa melhor versão, tentamos mascarar a vida para esconder a nossa condição humana: somos estranhos, errados, complexos, divididos. Faltosos. 

Encantadoramente faltosos. 



P.S.: Autoconhecimento me parece algo como um lago quase congelado, onde alguns molham os pés, e de tão gelada a água e difícil de mergulhar, se afastam. Outros, se jogam no lago congelante alegando que não está tão frio assim, sem ter a mínima ideia de que podem morrer por hipotermia grave, em que nem uma ECMO como suporte ajudaria. 


quinta-feira, 5 de julho de 2018

Com hora (des)marcada


Cá estou eu, atrasadíssima, para minha análise. Quase sempre tomo banho e troco de roupa em cima da hora. Quando fora de casa... Bem, fico procurando outras coisas para fazer até o horário do atendimento. Há algumas semanas, venho pensando mesmo em dar um tempo da minha analista. É bem verdade que comecei há poucas semanas, e, tenho tido dificuldade em reservar um horário na semana com ela.

Não tenho tido muitos recursos financeiros, devo dizer, embora ela me diga que isso não seria impedimento e que há diferentes formas de pagar uma análise, que o investimento não é só financeiro, e etc. Mas, acho que quando você não tem dinheiro para algo, é melhor não insistir em fazer. E, convenhamos, é caro fazer terapia. Além de ser incômodo ficar falando e falando e sentindo como se minha analista estivesse vendo minha alma pelas minhas palavras. Eu até espero alguma resposta, mas ela sempre me questiona em alguns pontos, e, nossa... Que tarefa difícil falar sobre si! Começo a pensar coisas que antes não pensava, e às vezes, saio pior do que entrei. Não deveria ser o contrário? As suas perguntas ficam na minha cabeça por dias e chego a perder o sono!

Constantemente chego em casa com uma certa raiva da minha analista! Coisa horrorosa essa de ficar colocando o dedo na ferida. Às vezes penso que da minha ferida cuido eu. Para que um outro alguém olhando para ela? Saio da sessão querendo nunca mais ver minha analista. Embora eu sempre confirme a sessão da semana seguinte.

Cá estou eu, na rua próxima ao seu consultório. Será que posso cancelar agora? Por estar muito atrasada... Talvez remarcar para amanhã ou outro momento ainda nessa semana. Mas, espere... Lembrei que tenho um aniversário para ir amanhã pela tarde. Não poderia faltar em um aniversário! Depois de amanhã tenho cinema com alguns amigos da faculdade. De manhã cedo também não posso... não irei acordar cedo para ir à analista, não é? Também deixo meus primos na escolinha de inglês duas vezes na semana, e sempre preciso pedir para meu pai emprestar seu carro para que eu consiga sair com mais tranquilidade. Duas sessões na semana seguinte ficam muito caras para pagar. Eu poderia usar esse dinheiro para economizar e comprar um sapato ou mais comida para quando receber os amigos no final de semana.

Por fim, eu não sabia que fazer análise exige algum sacrifício ou disposição para abrir mão de algo. Quero soluções, sabe? Se eu mesma que tenho de resolver minhas questões... prefiro contar meus problemas para os meus amigos, ao menos eles concordam comigo e me aconselham...

É, acho que vou mesmo parar minha análise.



P.S.: Ah, a dor gozosa... Essa lamentação interminável (que chega a lugar nenhum) que o analista, felizmente, não acolhe... 

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Sinto muito


Agnes abriu a porta do seu quarto e em seguida jogou na cama sua bolsa e o livro que havia acabado de comprar. Dentro do livro, havia uma prescrição de medicamentos, que sua psiquiatra lhe deu, horas antes. Era a terceira vez que trocava de psiquiatra, e a quinta vez que buscava um psicólogo. Achava perda de tempo ir a mais consultas e novamente ouvir que tudo aquilo que sentia iria passar. "Vamos trabalhar para isso", ouviu. Sentou na cama e começou a chorar, enquanto tirava os sapatos.

Havia recebido 3 diagnósticos. Todos transtornos mentais. Já havia procurado no Dr. Google quais transtornos eram esses, e apesar de experienciar as características mal-ditas de cada um, eles não diziam nada sobre si. Mesmo tomando religiosamente os remédios, e, de certa forma, melhorado do quadro clínico, ainda se sentia triste, sozinha, incompreendida. A tão querida melhora acabava por soltar suas mãos. Ao mesmo tempo que queria, desesperadamente, eliminar todos aqueles sintomas que causavam tanto mal estar, achava confuso e desconexo chegar a uma consulta e ouvir formas de aliviar os sintomas. Se procurava a cura, por que o vazio ao encontrá-la? Por que se autossabotava*?

Abriu a gaveta e tirou um papel branco, dobrado ao meio. Talvez, naquela noite, pudesse dar continuidade ao seu plano. Talvez, com o seu suicídio, alguém conseguisse a façanha de ouvir algo. Mesmo que não estivesse mais ali, acreditava que sua carta de despedida poderia ser o momento em que mais teria sido ouvida. Não queria calar o sintoma, queria dizer algo sobre si além do que os sintomas mostravam. Mais ainda, eles eram seus únicos melhores amigos.

Agarrava-se tanto aos seus sintomas quando não conseguia falar... Tinha sintomas somente por existir. Um dia, ouviu de um senhor que também aguardava atendimento na sala de espera da psiquiatra: "Sintomas foram feitos para sentir". E sentia tanto...



P.S.: (Pergunta retórica) Por que será que suicidas (ou os que tentam) sempre escrevem em suas cartas um "Sinto muito"? 

*Nota da autora: palavrinha mequetrefe. Em psicanálise, seria mais interessante e amplo dizer "compulsão à repetição". 

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Noites sombrias


Ele me deu um beijo no rosto e me abraçou, deixando a toalha cair na cama. Eu não sei se ele estava feliz em me ver ou se estava cansado por ter chegado de viagem. Ambos, talvez. Ele foi até o banheiro para pôr alguma roupa. Fechou a porta, mas logo a abriu. Desistiu, e, voltou com a toalha no corpo. Eu estava sentada na cama, com um travesseiro entre as pernas. Havia passado boa parte do dia em seu apartamento, esperando-o chegar de uma viagem. Não sabia exatamente o que eu estava fazendo ali e o que eu queria com aquele relacionamento. Há semanas eu estava interpretando um papel criado por mim mesma para tentar dar conta daquilo que eu não suportava mais sentir. Quantos atores de novela são tão convincentes com suas personagens? Talvez eu obtivesse algum sucesso com a minha personagem criada em meio ao caos.

Ele sentou ao meu lado na cama, perguntou o que eu tinha para estar tão quieta. Eu respondi, quase sussurrando, que estava tudo bem, sem olhar para ele, que em alguns segundos depois se levantou, e, foi até a cozinha. Soltei os cabelos, coloquei meus anéis na mesinha de cabeceira, e, deitei na cama. Algumas vozes internas me incomodavam, não me ouviam quando eu pedia para que parassem de falar. Eu só queria ficar ali, quieta, esperando minha angústia passar. Chorei baixinho por alguns minutos... talvez nem eu conseguisse me ouvir.

Ele voltou ao quarto, e, deitou na cama. Apesar de eu estar deitada de costas para ele, percebi que me olhava, e, eu desejei que não perguntasse novamente se estava tudo bem. Beijou meu ombro, tocou minha cintura, me puxou para ele. Eu não sei se eu queria sexo naquele momento. A certeza que eu tinha era de que as vozes na minha cabeça não iriam embora e eu não podia gritar. Olhei-o nos olhos. Beijei-o. Tirou minha blusa, pôs sua mão por baixo da minha calcinha. Beijou minhas coxas. Ele estava só com uma toalha, não foi difícil deixá-lo sem ela, puxando-a com um dos meus pés. Ele estava em cima de mim, beijando meu pescoço.

E então eu vi. Manchas negras no teto, aumentando de tamanho em segundos. Eu pedi que ele parasse. Olhou para mim... Beijei-o. Ele me abraçou com força. Eu não consegui dizer não a ele. Deixei que me tirasse a roupa. Eu fechava os olhos, na tentativa de não olhar para cima. Eu o senti entrar em mim. Beijou meu seios, apertou minhas coxas. Ele estava excitado o suficiente para não querer parar. Eu não sabia o que fazer.

Pedi para que deitasse. Talvez, meu corpo por cima do seu diminuísse meu pânico. Eu poderia me concentrar no rosto dele, nos meus movimentos. Eu ouvia seus gemidos, ouvia vozes sussurrando no meu ouvido. Tentava não desviar a atenção do som da voz dele. Apoiei minhas mãos em seu peito, olhei-os nos olhos. Pediu para que eu não parasse. Respirei fundo mas... pouco sentia algo. Não importa quantos movimentos eu fizesse, o quanto ele me tocasse, o quão forte, e, profundo me penetrasse, eu não conseguia ir além. Nunca soube fingir um orgasmo. A minha dificuldade em expressar sentimentos meus e interpretar um papel na vida já preenche todos os espaços, não deixando lugar para o que não se sente. Pensei por alguns segundos que talvez minha vida se resumisse a isso: ser amada, somente. Corresponder ao amor do outro era um caminho difícil de percorrer. Enquanto ele gozava, lembrei de uma senhora, que certa vez me disse: "Nem sempre casamos com quem amamos". É... era esse o pensamento que vinha em mente quando ele tinha um orgasmo.

Deitei em seu peito, queria poder chorar. Ele perguntou se estava tudo bem. Eu... nada disse, apenas beijei-o na boca. Após algum tempo, de súbito, levantou, puxou minhas coxas, e, me penetrou por trás. Beijava minhas costas, tocava meu seios, acelerava seus movimentos. Eu pude sentir um pouco de prazer. Deixei escapar alguns gemidos, breves. Senti um pouco de incômodo, mas não era tão importante a ponto de fazê-lo parar. Eu tentei me permitir mais. Não queria que ele sentisse que eu não estava ali. Contudo, por alguns momentos eu me senti um corpo morto, sem expressão alguma. O pouco do prazer que eu senti desapareceu quando vi alguns espinhos na parede. Abaixei o rosto, chorei sem que ele percebesse. Deixei que terminasse, novamente.

Ele me deu um beijo, me fez deitar em seu peito. Beijei suas mãos. Ele perguntou novamente o que estava acontecendo. Olhou-me confuso, percebendo que eu estava assim desde o começo. Perguntou o motivo de eu não responder. Levantei da cama, em direção ao banheiro. Disse que eu era impossível, e, que não queria aquilo para si. Fechei a porta, e, sentei no chão do banheiro, chorando, e perguntei a mim mesma por que as vozes não iam embora, por que precisavam me perturbar tanto. Até quando eu seria atriz do meu próprio filme de terror?


sexta-feira, 1 de junho de 2018

A relação sexual não existe


Quando alguém inicia a árdua e penosíssima tarefa de ler Lacan, ou quando um sujeito leigo ouve por aí a frase "A relação sexual não existe", os segundos posteriores se resumem a uma confusão mental e repetidas vezes a pergunta: "O que? Como assim?" 

Assim como fazia Lacan com os seus seminários, adoramos dar voltas e voltas em torno do nosso sofrimento, sem ter a mínima ideia de onde ele veio e o que fazer com ele. Sabemos, sem saber, que a linguagem não é capaz de dizer tudo aquilo que mora aqui dentro. Algo sempre escapa das palavras.

Sabemos também que entre um idioma e outro existem várias possibilidades de tradução. Entre "rapport sexuel" e "relação sexual", a vida nos ensina que há significantes que escorregam pelos nossos dedos, e, apesar da tradução bem servir nesse caso, gera dupla interpretação. Mais, ainda... mal entendidos. Rapport, também pode ser traduzido para harmonia, conformidade, concordância, compatibilidade, sintonia. Mas, espera aí... quando se fala da relação entre sujeitos... essa harmonia não existe.

A gente adora acreditar em frases prontas de auto-ajuda para tentar preencher uma falta estrutural e tamponar a nossa inabilidade de lidar com o amor. Ruim com ele, pior sem ele. Ainda que o amor - idealizado - não nos tire o mal-estar.

A gente constantemente acha que o nosso amor é sempre maior que o amor do outro, e que esse outro nunca nos ama o suficiente. A verdade é que jamais saberemos - e se soubéssemos, o incômodo seria outro - e essa impossibilidade de saber nos incomoda a ponto de nos perguntarmos o que diabos estamos fazendo ali. Conviver com outros sujeitos é um eterno "discutir a relação".

A gente acha que damos tudo ao outro e que esse tudo é sempre aquilo que o outro quer. E que aquele mundo que o outro nos entrega em mãos deve ser sempre o que nós queremos.

A gente aprende desde criança que 1 + 1 = 2. Bom seria se os nossos relacionamentos fossem ciências exatas. A relação de um sujeito com o outro é uma infinita discalculia, onde 2 + 2 podem ser 4, ou 6,33, ou 1/2 ou 10,5... ou 0.

Ainda confundimos sexo com sexualidade. Ainda confundimos amor com felicidade. Ainda embaralhamos amor com desejo. Ainda confundimos, e muito, aquilo que sentimos com aquilo que o outro tem para nos oferecer. Ainda que sejamos seres falantes, não falamos a mesma língua. Ainda que acreditemos que podemos dizer tudo, algo sempre escapa à compreensão. Ainda que achemos que nos expressar em palavras é o suficiente, o outro nunca conseguirá compreender completamente o que queremos dizer.

Perceber que a relação sexual não existe, com todas as suas nuances é, frequentemente, uma das maiores descobertas que experienciamos durante uma análise. Dolorosa, sentida em doses homeopáticas de tortura, e, por vezes acompanhada de lágrimas e angústia.

Talvez essa seja uma das frases - entre (todas) tantas - mais mal compreendidas ditas por Lacan. Talvez umas das distorções mais bem vivenciadas por cada sujeito. Talvez um amontoado de palavras que nos dizem aquilo que nos machuca saber. Talvez.

Por fim, precisamos que a relação sexual não exista para que o amor nunca canse de ser dito.


PS: escrito ao som de Kara - Main Theme 
e Little One, trilha sonora de Detroit: Become Human
Links para ouvir aqui e aqui.