Se alguém me perguntasse, nesse exato momento, o que faz um psicanalista, possivelmente eu ficaria alguns segundos sem responder, e, talvez até dissesse, com um ar frustrado: "Não sei te explicar".
Seria quase cômico. Mas não seria trágico.
Não é como responder o que faz um médico ou nutricionista. Enquanto aquele faz diagnósticos nosológicos, cirurgias e prescreve medicações, esse prescreve dietas e/ou cuida da alimentação de indivíduos sadios ou enfermos.
Talvez seria mais fácil responder o que um psicanalista não faz. Ou não é. Certamente, um psicanalista não faz milagres. Não sai dando conselhos de como viver a vida. Não vomita manuais de felicidade. Não é um livro de auto-ajuda ambulante. Não é médico (mas pode ser), não é psicólogo (mas pode ser), não é advogado
Há quem diga que um psicanalista "sabe tudo de alguém" somente com o olhar... Acho que um psicanalista seria muito útil, e menos custoso, em substituição a aparelhos de raio x, ultrassonografia e ressonância magnética. Supostamente, basta um olhar para o psicanalista perceber tudo o que acontece com um sujeito e descobrir tudo o que se passa em sua mente. Assustador, eu diria. Entendo, talvez, o motivo de muitas pessoas sentirem receio de bater um papo por aí com um psicanalista, fora do consultório. Há quem se afaste por acreditar que um psicanalista analisa toda e qualquer pessoa que cruza seu caminho.
Há quem pense que deitar no divã é algo semelhante a fazer sexo com alguém. Há quem diga que um psicanalista é sempre alguém extremamente culto, um ser místico que sabe de tudo, usa roupas caríssimas, fala impecavelmente bem e não erra jamais. Há quem diga que um psicanalista não tem problemas pessoais ou conflitos internos. Há quem diga que psicanalistas não podem falar palavrões. Desconheço quaisquer características divinas.
São tantos preceitos, idealizações e dúvidas. Ainda assim, responder o que faz um psicanalista não anda de mãos dadas com um "decifra-me ou te devoro".
Um psicanalista faz o analisante ou paciente descobrir um saber que ele mesmo não sabia que já o sabia. Um saber inconsciente. Quase um Easter Egg*. Tão estranho, mas ao mesmo tempo, tão próprio do sujeito. Um psicanalista implica o sujeito, com sua vida mal-dita, fazer melhor com o seu sintoma. Bem-ditas palavras sendo escritas em sua própria história, para, quem sabe, um Plot Twist**.
Um analista possibilita a alguém fazer as pazes com o seu inconsciente e deixar a vida mais interessante. E isso não tem a ver com o certo e o errado. Psicanalistas não são juízes, muito menos saem por aí avaliando pessoas. Menos ainda, ditando verdades. Em uma análise, nossos sentidos vão perdendo sentido, caindo em pedaços pelo chão, onde cada um vai construindo seu quebra-cabeças particular, sem exatamente encaixar perfeitamente todas as pecinhas. E por não haver encaixe sem defeitos, vamos sabendo fazer melhor apesar de. Apesar da falta. Apesar dos furos, tão nossos. Apesar das perdas. Sem querer sair tapando buracos, desesperadamente, na tentativa de alcançar a completude, o não-sofrimento.
Ainda que eu tente explicar, e mesmo sabendo que a linguagem não dá conta de dizer tudo, um psicanalista faz um sujeito, de um jeito ou de outro, falar de amor.
Um mistério.
*Easter Egg: Significa "Ovo de páscoa". Tradicionalmente, na páscoa, os pais escondem os ovinhos de chocolate das crianças. A graça está em ir procurá-los. No mundo dos jogos, por exemplo, são "segredinhos" e "informações ocultas" que encontramos ao jogar um jogo (!) ou fuçar um programa.
**Plot twist: Reviravolta ou fato inesperado em qualquer obra narrativa, como filmes, jogos, séries e livros.








